A Beleza que pagamos

Por Marcelo Lopes

Eco e Narciso são duas figuras míticas que, como arquétipos, desenham muito bem histórias contadas e recontadas através dos tempos. A primeira personagem era uma bela ninfa, apaixonada pelo segundo, um jovem de beleza incomparável, cuja consciência da sua graça o levava a se achar semelhante a um deus. Eco, sem ter seu amor correspondido, definhou melancolicamente, o que fez a deusa Némesis lançar sobre Narciso uma lição à altura da sua frivolidade: o jovem apaixonou-se por seu próprio reflexo na água na lagoa de Eco, onde se deitou num banco, admirando seu próprio reflexo, embelezando-se, enquanto consumia-se pouco a pouco. Mais tarde, ao procurarem seu corpo, encontraram apenas uma flor, que hoje leva o seu nome.

Mitos que tem por tema a beleza povoam a história humana e mudam de tempos em tempos, de acordo as transformações do olhar do homem sobre o mundo que o cerca. As beldades da Renascença, por exemplo, tinham por característica o reconhecimento de suas celulites e pneuzinhos à mostra, fartura em carnes e muito lugar para “dar uma apertadinha”, revelando mais do que a voluptuosidade do seu corpo: num tempo em que comer bem e bastante era um privilégio ainda maior que hoje, demonstravam representar o ideal da beleza ao mostrarem-se bem nutridas. Um padrão de beleza estendido por séculos afirmando categoricamente que não haveria coisa mais linda neste mundo que uma gordinha nua.

Se as pinturas e esculturas clássicas perpetuavam padrões corporais ideais, referências máximas a serem seguidas na busca da beleza para homens, e muito especialmente, para mulheres, o acesso popularizado a outras e mais diversas imagens com o advento do cinema e da TV, criou mitos inalcançáveis de outra ordem de beleza, cercados de narrativas heroicas e sedução à flor da pele. Assim, de Rodolfo Valentino a Errol Flynn e Clark Gable, de Rock Hudson a Tom Cruise, passando por Greta Garbo, Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Sharon Stone a Charlize Therone Megan Fox, todos os mitos do cinema carregam para fora das telas doses cavalares de uma beleza que vai além dos próprios atores que os encarnam. Estes, contando do início do século para cá, tiveram seu padrão mudado radicalmente: os homens se tornando mais musculosos; as mulheres emagrecendo até não sobrar mais onde pegar.
 

O mundo que antes sustentava a beleza como um ideal, um status e um privilégio de poucos – manipulados no presente e na posteridade -, passou a transformá-lo numa construção que difunde um ideal do belo como algo vendável, comercializável, atingível na medida do bolso de cada um. Esta falsa democracia acirra o desejo humano na busca de um padrão cada dia mais inalcançável. Se anteriormente as revistas da moda e os anúncios já mascaravam com retoques à mão as fotos das modelos, o atual grau de refinamento da manipulação digital das imagens gera reconstruções corporais completamente irreais de tão perfeitas. Para esse novo ideal estético, que corrige as imperfeições, as curvas do corpo, vincos da pele, texturas e rugas, são anulados não apenas o que nos torna humanos, mas também aquilo que nos marca a história do corpo através do tempo. Temos, neste novo modelo, um padrão de tão alto nível de perfeição que não basta recorrer à saúde do corpo, é preciso ir além e nos tornarmos, pelo poder da maquiagem digital e da ponta de um bisturi, a reconstrução modelada de outro tipo de ser humano, edificado para atender não as exigências da saúde, mas aos apelos infinitos do desejo e do consumo.
 

Desta forma, assim como Narciso, um número cada vez maior de pessoas definha frente a um reflexo cuja imagem exige cada dia uma meta de beleza infinita. Exaltam a frivolidade e a superficialidade, que vem em anexo a um consumo desenfreado, nos estimulando em camadas e camadas de discursos midiáticos. Os reality shows, as modelos bombadas que exibem seus corpos nas TV’s e revistas, e as propagandas – que, sob quilos de maquiagens, cremes e imersões, prometendo o impossível – são reflexo e causa desta busca frenética. Cada dia mais os jovens querem permanecer mais jovens e os mais velhos buscam esticar sua juventude ad infinitum, numa luta desigual contra o tempo e o corpo. Têm, todos eles, flutuando sobre o ombro esquerdo, um capetinha miniatura que sussurra ao seu ouvido que é possível vencer essa peleja, enquanto, no outro ombro, um anjinho bonitinho lhes diz que nunca na vida você pode ficar tão lindo quanto ele.

Casos de inconsequências geradas por essa busca incessante não são poucos. Pipocam pela mídia, histórias em que a odisseia pelo corpo perfeito trazem, ao invés do esperado, deformações provocadas pelo exercício corporal mal feito, pelas cirurgias plásticas nos rostos e no corpo, entortando tudo, inclusive a cabeça de muita gente. Recentemente, em Vitória da Conquista, quatro jovens deram entrada em hospitais da cidade após terem utilizado anabolizantes – usados comumente em cavalos – para turbinarem sua musculatura, compartilhada na mesma seringa. Dois ainda correm risco de morrer e podem, um deles, ter os membros superiores amputados, e o outro, as pernas. Não é incomum, no cotidiano das academias, o uso de recursos extremos como estes. Na verdade, para atender a uma moda tão irreal, o absurdo se incorpora aos meios para alcançá-la.

Pensar o ideal estético do nosso tempo e tudo o que o implica não é possível sem compreender como somos tão fartamente bombardeados na nossa parcela narcisista. Bajulados, aliciados nas ruas, em casa, no trabalho, somos atalhados pela mídia naquilo onde mais somos vulneráveis, o nosso desejo. Vendem-nos o impossível em frascos, em carros, em móveis e imóveis, em estilos de vida e nos sentimos, mesmo sem ter como, parte disto. Entregues, nos deixamos levar. Queremos nos achar mais bonitos do que somos, e mesmo que o sejamos, ignoramos os riscos de querer ter (e não ser) mais. Por isso, tendemos, nessa lógica, a definhar também, sem nunca alcançar o reflexo. E, após tudo isso, não é possível que não sobre nem uma flor com nosso nome.
Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

2 Comentários

  1. Grande, João…

    A ideia de uma juventude eterna é mais um produto de venda que vemos em todo o lugar… Como não há maneiras de associar verdadeiramente a parada do tempo com qualquer solução que o faça, este é um produto irreal e esta irrealidade é que estimula comportamentos estranhos, neuróticos, obsessivos… no fim estimula também todo tipo de complexo.
    Isso nos afeta mais diretamente do que parece.
    Do meu lado, exercito todos os dias o convívio com minha barba branca precoce sem problemas, hehehe.

  2. Caríssimo, ótima publicação!
    Estava me lembrando de uma brincadeira sobre complexos. Vários tipos de complexos relacionados a mitos de estórias, personagens, por exemplo: Complexo de Cinderela, que quando dá meia noite, a pessoa, moça ou rapaz, tem que voltar pra casa,rs. Lembrei vendo o artigo seu, do Complexo de Dorian Gray, que quer permanecer sempre jovem, jovial…

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