COMPORTAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO NAS REDES SOCIAIS NO DIA 13 DE MARÇO

14 de março de 2016

Por Marcelo Lopes

 

Oportuna e deliberadamente, neste final de semana, abri espaço no meu perfil pessoal do Facebook para algumas postagens de cunho direcionadamente político (algo que normalmente evito). A experiência foi válida e interessante.

Infelizmente, como esperado, ela reforçou minha impressão sobre o quanto estamos despreparados para os desafios que temos que dar conta como brasileiros.

dama-vermelha

Foto: www.revistaforum.com.br

Escolhi alguns vídeos e imagens “em alta” no fluxo da rede social e “dei corda”. A ideia era observar como as pessoas poderiam ou não problematizar as leituras dessas imagens.

O que vi acentuou a sensação nítida que tenho, sobretudo como educador, de que as pessoas estão, cada vez mais, dotadas de uma visão imediatista da vida social, graças, muito especialmente, à SUBSTITUIÇÃO de uma EDUCAÇÃO, que deveria ser levada a sério, por uma MÍDIA agressivamente formadora de opiniões monocórdicas.

Mafalda-destaqueOu, como bem diz a personagem Mafalda, criada pelo cartunista argentino Quino, “viver sem ler é perigoso, te obriga a crer no que te dizem”.

Analisando brevemente os resultados, deixo aqui algumas considerações:

- MUNDO PRETO E BRANCO: Sem memória para dar subsídios aos argumentos, as questões postadas se resumem a uma luta do Bem contra o Mal – entre petistas e coxinhas, cada um ocupando o papel de vilão ou de mocinho, a depender da posição de cada um. Raramente, nos discursos, foram problematizados ou relacionados argumentos sobre um contexto mais complexo do momento que vivemos (sobretudo, na leitura e construção das fotos);

- A DISPUTA DE FATO: Se de um lado, as manifestações denotam a indignação geral com um processo político que ocorre há décadas, o que se tem hoje, efetivamente, é a disputa sobre DE QUEM É A VEZ DE MANDAR. Há pouquíssimas discussões que fazem ANÁLISES PONDERADAS sobre as manobras jurídicas, partidárias e midiáticas feitas nos últimos meses sem culpabilizar algum “mocinho” ou “bandido”. Temas importantes como projetos reais e claros para o país sequer são mencionados, tanto por parte dos representantes quanto do interesse da população nas redes;

- CRÍTICA E AUTOCRÍTICA: Os problemas vividos hoje aparecem quase sempre pela culpa do Outro, qualquer que seja ele. Nunca são nossos. A corrupção (esse ente alienígena) existe para além do nosso cotidiano, dos nossos atos (como o de furar fila, pedir para o colega assinar a lista de presença ou ver no Twitter onde tem blitz par não passar perto). Parece não haver conexão entre esses comportamentos e o fato de que os nossos representantes são frutos dos nossos atos políticos e da nossa visão de mundo imediata. Políticos não são exclusivos detentores do “gene” corruptivo. Há tanta responsabilidade neles quanto em nós;

bruga-eleitoral-virtual- OFENSAS: A indignação (que tateia, mas não enxerga à origem histórica dos problemas) se mistura com uma série de argumentos desarticulados do contexto e se revertem, em geral, numa metralhadora de postagens grosseiras, sem respeito às opiniões contrárias. Não raro, elas são direcionadas a amigos, parentes, conhecidos ou mesmo contatos quaisquer, passando da defesa de opinião à ofensa, sem meios termos. Nesse meio tempo, os problemas postos, em si, nem chegam a ser realmente discutidos. Ao contrário do que possa parecer, a classe política não é o único inimigo declarado,… desnorteados, estamos em guerra com nós mesmos;

- LEITURAS: Muitas imagens que estiveram em evidência neste final de semana (como as que utilizei) parecem não ter história além delas mesmas, ficam restritas às particularidades dos seus personagens. Raramente são lidas como parte de um contexto maior, que tem uma memória e papéis sociais onde estes personagens se encaixam e reproduzem atos, comportamentos e ideias. Para lê-las é preciso ir além do óbvio, perceber onde estão inseridas, interpretá-las a partir de visões múltiplas dos fatos. Parece que perdemos essa capacidade.

Captura de tela 2016-03-14 13.59.08Os temas que surgiram a partir dessas poucas postagens não se esgotam nessas observações. Servem apenas de um brevíssimo recorte que, com efeito, pode demonstrar que sem os subsídios da Educação a informação não necessariamente se desdobra em conhecimento, as narrativas geralmente se limitam a um estágio anterior à formação de opinião e mesmo essa opinião pouco pode servir de reflexão real para a ação.

Mais ainda: que nessas lacunas deixadas na educação brasileira, a formação sociocultural da população, ofertada pela mídia (TVs, jornais, redes sociais etc.) nos reduz a seres que respondem facilmente a estímulos imagéticos superficiais e a argumentos rasos. Nosso alcance em observar a história é imediato, nossa resposta às questões do dia-a-dia é instantânea, nossa visão de país é nublada a médio e a longo prazo, tanto ao olhar para o passado quanto para o futuro.

E, portanto, como lidar com esse desafio contemporâneo, em meio à crise que é fundamentalmente de lógica política, se não nos damos conta do quão fundo e longo é o nosso problema?

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Uma resposta para “COMPORTAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO NAS REDES SOCIAIS NO DIA 13 DE MARÇO”

  1. Raquel disse:

    A política no país está mal mesmo.

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