Conformismo x Arte: a intolerância nossa de cada dia

Por Marcelo Lopes

 

Incrível pensar como somos criados para sermos conformistas. A história, em qualquer tempo e lugar, em maior ou menor grau, se vale deste mecanismo como um elemento de ação, e o que demonstra o quanto somos mais ou menos maduros é a nossa relação com este tipo de comportamento.

Etimologicamente, a palavra “conformar” significa moldar, ajustar, dar forma. É também um sinônimo de bitolar, já que a palavra bitola é a “medida pela qual uma obra será feita”, um modelo, um padrão. Pensar em conformidade, no entanto, não significa necessariamente ser conformista: a conformidade segue uma lógica, mas não se limita a ser e sim a estar de acordo; já o sufixo “ista” (de conformista) está diretamente ligado a ser adepto a um padrão e, em última instância, fala de uma espécie de crença sobre um padrão, uma militância, um limite na forma de pensar e agir. São nuances de linguagem, mas que demonstram em nós as diversas percepções de mundo.

intoleranciaNossa sociedade se mantém dentro dos termos do conformismo, entendendo o “ismo”, diretamente ligado ao “ista”, como um sistema a ser seguido, algo consolidado como regra. O conformismo é necessário para manter tudo como está: não abre espaço para o questionamento, para o livre pensamento, para a criatividade, para a ideia, para a dúvida e se mantem num som quase eterno e dormente em cada pequena coisa que se faz no dia-a-dia. Todos estes predicados negados, segundo os conformistas, são perigosos. Sob o signo do conformismo foram moldados regimes autoritários, pensamentos retrógrados, leis inflexíveis e um sentido de imutabilidade que chega a negar a dialética da própria natureza das coisas e do tempo, responsável por nos fazer crescer e desenvolver. O conformismo, pela sua mais completa falta de diálogo com o que não lhe é igual, é a principal porta de entrada do preconceito e da intolerância.

De outro lado, uma das maiores expressões contrárias ao conformismo é a arte. O estatuto da sua existência tende a sempre negar o estabelecido, a estimular o que há de criativo em nós, a por em xeque aquilo que tememos pensar, a invalidar conceitos, esfacelar dogmas, sacudir o que está decidido, a mostrar o outro que não queremos ver. A arte em si não diz nada, pode também ser conformista, mas suas margens são imensas e cheias de ondas.

Mesmo com sua natureza irreverente e inquieta, ela também age em conformidade – segue a lógica do padrão – mas não é limitada a ela e frequentemente coloca suas incontáveis mangas de fora, indo de contra, inclusive, àqueles que se valem dela, incluindo-se aí a religião, o estado e a política.

tolerancia1No embate entre o conformismo e a arte surgem, normalmente com estandartes de fúria e fogo, os reacionários, perfilados no primeiro lado. São estes dotados de indignações, certezas e nunca hesitam. Do outro lado, uma fauna difícil de descrever, mas se é possível unificá-los em poucas palavras, tornam-se visíveis por questionar e colocar as dúvidas na ordem do dia, mostram o eixo torto da pilastra e, sim, são normalmente irreverentes, talvez porque o riso seja uma arma das mais mortais contra argumentos engessados.

O campo de batalha pode ser qualquer um e os personagens não têm rosto fixo (nem padrão). Posso escolher, por exemplo, a Av. Juraci Magalhães, em Vitória da Conquista, onde, sustentada numa placa de 9x3m, desceram os primeiros golpes dos dois lados: o primeiro gráfico (fotográfico, na verdade); o segundo pincelado e rasgado. No meio, todos nós.

obranuncioO fato: neste mês, o projeto Obranuncio, proposto pela estudante de Cinema e Audiovisual da Uesb, Núbia Neves, e aprovado em edital público na Fundação Cultural do Estado da Bahia, levou para 14 outdoors da cidade composições artísticas de cinco criadores-fotógrafos, ocupando espaços de mídias de massa com novos olhares sobre temas abertos. Uma destas obras trouxe polêmica ao veicular uma fotografia tríptica onde, na figura central, surgem dois homens se beijando, cercados por um contexto em que se atribui uma associação icônica religiosa. No último domingo (16) o outdoor apareceu pichado e rasgado, após várias manifestações em redes sociais contrárias à sua veiculação pública.

A Constituição brasileira determina que é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença. Da mesma forma que é livre o direito à manifestação em qualquer sentido. A questão principal é onde um se sobrepõe ao outro, anulando-o ou cerceando-o.

Expressões artísticas que ultrapassam a barreira daquilo que o pensamento estabelecido acredita ser inquestionável tendem à polêmica e suscitam debates acentuados, o que é ótimo. Mas é preciso pensar até onde vão os limites do debate e o que se aprende com ele. Onde estão estes limites? Não estão, por exemplo, na queima de livros em praça pública, na agressividade sublimada ou manifesta contra temas de cunho religioso, racial ou sexual nem estão no ato de justiçar alguém com as próprias mãos. Tudo é muito mais complexo que o imediatismo das questões postas e viver sob a égide do conformismo agrava ainda mais a ausência de diálogo.

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Talvez a melhor referência ao limite seja o respeito ao próximo e às suas ideias, sem que umas se imponham sobre as outras. O sentido crítico é que não pode ser abafado em hipótese alguma porque é somente por meio dele que podemos demonstrar o quanto somos mais ou menos maduros na nossa relação com que nos é dado como certo e sem dúvidas.

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

1 Comentário

  1. Achei muito bonita a escrita. Não soube desse caso em Conquista. Na vrdd não encontrei a data da matéria p saber qdo aconteceu. Mas uma pena. Gostaria de ter visto isso em um outdoor

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