Geraldo Sarno – uma conversa embaixo da casuarina

Durante a Mostra Cinema Poções - Foto Fábio Agra

Por Fabio Agra

Neste mês de março faz um ano que a II Mostra Cinema Poções – Homenagem a Geraldo Sarno – foi realizada. À época, alguns dos principais filmes de Geraldo foram exibidos, como o clássico Viramundo (1965) e o premiado O Último Romance de Balzac (2010). Durante os três dias do evento, o cineasta permaneceu na cidade, comentou seus filmes, relembrou histórias e participou das filmagens de um documentário sobre seu retorno a Poções, sua terra natal. Geraldo Sarno é uma referência do cinema documental brasileiro e da América Latina. Entre as inúmeras premiações que já recebeu ao longo da carreira, mundo afora, uma das mais recente aconteceu em 2012 quando foi homenageado no 24° Festival de Cinema de Viña Del Mar, no Chile.

Durante sua visita no ano passado a Poções, entre um descanso e outro, eu pedi para gravar uma ligeira conversa que estávamos tendo. Sentado embaixo de uma casuarina, na antiga Praça da Liberdade, que hoje se chama Praça da Bandeira, e a alguns metros do colégio Alexandre Porfírio, onde estudou, Geraldo Sarno falou um pouco sobre sua vinda à cidade e outras coisas mais. Compartilho com vocês esse pequeno relato do nosso grande cineasta. Um pequeno bate-papo para, nós poçõenses, o conhecermos melhor.

Geraldo Sarno sentado na Praça da Bandeira (antiga Praça da Liberdade) - Foto Fábio Agra
Geraldo Sarno sentado na Praça da Bandeira (antiga Praça da Liberdade) – Foto Fábio Agra

Fábio Agra: Como foi essa experiência de retornar a Poções, ser homenageado e ao mesmo tempo mostrar seus filmes às pessoas, já que é um cinema documental que muitos não têm acesso?

Geraldo Sarno: É muito importante para mim ter estado em Poções, ter esperado para estar presente quando mostrasse os filmes. Você tem acesso a muitos desses filmes documentários pela internet. O pessoal naturalmente coloca, não sei onde. Você pode baixar muitos desses documentários, porque não sou eu nem o pessoal de cinema que bota. São as pessoas curiosas que gostam, que vão lá e põem. Então não sei exatamente onde que é porque nunca mexo com isso. Mas, pode ser Facebook, Youtube. Você encontra os filmes e tal. Outra coisa. Você também tem esses filmes na Programadora Brasil. Onde você tem acesso e pode retirar alguns.

Mas para mim, foi excepcional. Eu estou há muito tempo esperando a oportunidade de poder vir. Entendeu? O momento melhor de vir, estar com a cabeça mais tranquila. Corresponde a um certo momento interior de você mesmo. Uma etapa da sua vida que você diz – bom, tá na hora. Então, eu acho que esse momento foi agora e foi muito bom. Para mim foi maravilhoso poder ter estado aqui e estar aqui ainda. Mostrar os filmes, estabelecer uma nova relação. Espero poder ajudar, colaborar com a juventude de Poções. Não só através dos filmes que eu fiz, mas através de uma atividade que eu possa colaborar. Estimulando uma atividade cultural na cidade. Isso eu vou fazer. Não tem dúvida que se tiver a oportunidade, eu vou continuar a fazer. Então, é isso. A oportunidade de poder rever os locais, relembrar os momentos que vivi na infância aqui. Foi muito importante, foi muito interessante.

F. A.: Isso é um sinal que o senhor deve retornar aqui mais vezes a partir de agora?

G. S.: Eu espero fazer uma ponte com o pessoal de Conquista, com a Universidade [Uesb], com a escola de [cinema de] Conquista. Espero ter uma ponte lá. E espero fazer uma ponte aqui também que me permita de agora em diante, com um pouco mais de frequência, voltar alguns momentos.

F. A.: Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre cinema-educação. Como trabalhar o cinema-educação no interior e de que maneira ele poderia chegar aos jovens?

G.S.: Eu acho que de diversas maneiras. A história do cinema tem realizações cinematográficas que são criações artísticas e de importância cultural extraordinária. Filmes, documentários, de ficção e de desenho animado, de toda ordem. Você só não encontra esses filmes sendo feitos hoje, como você tem na história do cinema desde o início. Você tem a realização de um cinema que traz uma informação, entendeu? E que traz uma coisa que seria fundamental na formação das pessoas e da juventude.

Por outro lado também, as escolas podem ser estimuladas. Você pode ter uma ação em que as próprias professoras e os cursos de ensino médio e, mesmo, de primeiro grau [ensino fundamental] possam ter acesso a alguns desses filmes. É só ter um ponto, um núcleo, e que possa fazer essa relação e ativar essa relação. Fazer com que os grupos escolares, os grupos de certas turmas venham assistir a um determinado filme ou você levar o filme até a escola. Até com a periodicidade. Que aí você tem uma garotada já concentrada, já no lugar que você pode fazer. Isso depende da possibilidade do relacionamento com as escolas e de criar uma programação, no final do expediente em determinado dia da semana, uma vez por mês, ou mesmo levá-los a um local que se faça habitualmente uma projeção e que eles possam ir a um determinado dia. Enfim, essa é uma atividade didática, cultural, que eu acho muito importante. Eu penso que é muito importante. Fundamentalmente é isso. Eu acho que no primeiro momento esse tipo de ação é possível. É possível desenvolver essa coisa. E não é complicado, não é difícil. Eu acho.

F. A.: Boa parte da sua obra é sobre estudos do sertão. Queria que o senhor falasse um pouco de o porquê a grande mídia tratar o sertão de uma forma muito baixa, rasteira, que degrada o sertanejo, o nordestino. Como dialogar com isso e tentar acabar com esse viés?

G. S.: É uma questão cultural. É uma questão de formação cultural. A grande mídia tem objetivos comerciais, tem objetivos mercadológicos, de criar necessidades não exatamente essenciais, importantes, mas necessidades de mercado, necessidades de venda, de compra de produtos, que não são realmente, talvez não seja, eu estou seguro que não são, os de primeira necessidade e nem de realmente de consumo adequado. Esses produtos são criados em todas as faixas, desde as coisas materiais de vida, como também no plano simbólico, no plano cultural. E isto tem uma finalidade puramente comercial. Marcador de mercado, de venda. Não tem uma finalidade de estimular o pensamento, a criação, uma forma de vida mais humana. Não é isso. É o mercado. Tem que vender e o outro tem que comprar. Tem que criar necessidades que estão na perspectiva do processo industrial, no processo de urbanização. Em grande parte são valores de uma industrialização, de um consumo, que é um consumo em grande parte mundial. Quer dizer, os hábitos nordestinos não são exatamente os hábitos que interessa a eles, ao mercado mundial e nacional, capitalista já formado. Esses hábitos não são exatamente os hábitos. São outros hábitos. Na verdade são outras coisas. A necessidade de consumir outros produtos intelectuais e materiais não são os que estão numa vida sertaneja. Então é isso. Acho que em grande parte é isso. É isso aí.

Durante a Mostra Cinema Poções - Foto Fábio Agra
Durante a Mostra Cinema Poções – Foto Fábio Agra

F. A.: O senhor saiu jovem daqui de Poções. O que o levou a fazer cinema?

G. S.: O acaso. Em parte o acaso. Em parte, eu estava de alguma maneira preparado. Não orientado especialmente para isso, mas preparado para responder a este desafio no momento em que o acaso abriu. Podia ser outro tipo de atividade intelectual, e foi o cinema. E eu respondi a esse desafio, a esse momento em que esse acaso se apresentou e pude me desenvolver nisso, de encontrar no cinema a maneira de dialogar comigo mesmo, no fundo, encontrar a mim mesmo e de fazer uma obra cinematográfica voltada para as coisas que me eram estimulantes, que era interessante, que eu pensava, que eu julgava e julgo que teriam algum interesse coletivo. Interesse, não diria de público, não diria imediatamente de mercado, mas interesse do povo, que é diferente público de povo. Interesse da população brasileira, no sentido que, acredito eu, são filmes que afirmam uma identidade do povo brasileiro, na maneira de ser do povo brasileiro, da sua criatividade, de sua energia. Então, isso aí corresponde a uma coisa que é o do povo brasileiro. Foi isso. Não é outra coisa, não. Foi isso que mexeu, no fundo é isso, simples. E o resto é trabalho. Estudo, trabalho, obsessão. Mesmo quando está na dificuldade, não tem horizonte, está tudo muito difícil, você fica ali insistindo.

F. A.: O senhor vem de uma geração que criou o Cinema Novo, uma geração de intelectuais baianos que surge nessa virada da década de 1950 para a de 1960. No entanto, perdemos essas referências intelectuais, falando das novas gerações, da contemporaneidade. Não conseguimos ter novas gerações de intelectuais tão forte quanto foi a sua geração lá na década de 1950 e 1960. Como o senhor ver isso?

G. S.: Não, eu não sei. Eu acho que tem sim. Tem muita gente pensando para caramba. Eu acho que tem gente criando, tem gente pensando. Eu acho que eles não estão conseguindo aparecer, talvez. Porque o mercado, a mídia escrita, televisiva, toda ela é profundamente orientada por um mercado para o consumo, para o comercial. Então eu acho que tem gente pensando, gente criando e acaba por aparecer, acaba por surgir. Eu acho. Agora, acho também que as coisas mudaram. As coisas não são as mesmas. Até a forma de manifestação mudou dos anos 1960 para cá. Há outras maneiras de refletir, de realizar. Eu penso isso. Eu conheço uma garotada muito inteligente, que trabalha, que vai atrás. É verdade que as atrações de mercado são muito mais fortes agora e de que há uma produção que ocupa o mercado, que é absorvente, que atrai toda uma juventude, e que é uma criação e uma coisa sem profundidade, uma coisa de escapista. Eu acho que tem isso e é muito forte, é dominante. Mas, acho que é possível não esperar apenas por políticas públicas, mas acho que é possível estimular os jovens a uma criação diferenciada. Acho que é possível.

Após a II Mostra Cinema Poções, que aconteceu entre os dias 15 e 17 de março de 2013, Geraldo Sarno retornou a Poções em outubro do mesmo ano, quando passou uma semana por aqui.

Entre os filmes disponíveis na internet, o clássico Viramundo, como disse Geraldo durante a nossa conversa, está no youtube. Clique aqui para assisti-lo.

Há também um texto interessante, publicado no Estadão, sobre Geraldo Sarno, onde ele comenta um pouco sobre cinema e educação, além do projeto A Linguagem do Cinema, lançado em 2001. Confira aqui no link. Vale a leitura.

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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