Gregos e Troianos vão Invadir o Vila Velha

7 de janeiro de 2014

Por Deolinda Vilhena

Feliz ano novo aos meus 17 leitores! Deixo aqui a promessa de estar mais perto de vocês nesse ano de 2014. Que já disse a que veio e que marcará minha estreia como produtora em Salvador, meu amor, Bahia!

Pois é, depois de três anos em Salvador como professora da Escola de Teatro da UFBA me vejo agora como Coordenadora do XXVIII Curso Livre de Teatro, um dos maiores capitais simbólicos da Casa de Eros, pois que é seu mais antigo projeto de Extensão permanente. Foi após tomar posse  nesse cargo, em abril do ano passado, que convidei Márcio Meirelles, cujo nome dispensa apresentações na Bahia e fora dela por ser um dos nossos mais atuantes encenadores, para dirigir pela primeira vez um espetáculo da Escola de Teatro. Convite feito, convite aceito e nove meses depois eis que nasce, na próxima quinta, dia 9 de janeiro, Troilus e Créssida, de ninguém menos que William Shakespeare, na íntegra, com tradução de Barbara Heliodora e 35 atores em cena no palco da casa que nas palavras de Gilberto Gil é “a pia batismal dos artistas baianos”, o Teatro Vila Velha que completa em julho próximo 50 anos de excelentes serviços prestados à cultura brasileira.

Não eu não vou contar para vocês o que é produzir teatro nas terras do Nosso Senhor do Bonfim, vou poupá-los da tragédia que me ensinou que devo respeito aos que aqui fazem da arte e da cultura profissão. Difícil! Com 37 anos de estrada, pela primeira vez na minha vida corri o risco de não estrear na data prevista e haja jogo de cintura para tomar algumas decisões, sem as quais não estrearíamos na data prevista mesmo!

Foi assim que utilizei pela primeira vez o que até então era meu conhecido apenas de sala de aula: o crowdfunding, ou financiamento coletivo. A vakinha dos tempos modernos nos trouxe o apoio de mais de 100 mecenas com contribuições que oscilaram entre cinco e mil reais. De Edla van Steen e Sábato Magaldi, passando por Léa Penteado, sem falar nos pais, mães e amigos os mais de 6.000 reais arrecadados foram vitais para o espetáculo.

A esse dinheiro somou-se a verba obtida por um bazar-brechó organizado pelos alunos do próprio Curso Livre, três mil reais em dois dias de vendas no Teatro Martim Gonçalves. De grão em grão a vakinha foi enchendo o papo e Troilus e Créssida nascerá lindamente na próxima semana, de parto natural, como previsto.

Troilus Hugo Bastos e Cressida Bruna Brito Foto Marcio Meirelles

Troilus Hugo Bastos e Cressida Bruna Brito / Foto Marcio Meirelles

Para quem não conhece o texto escrito pelo bardo inglês por volta de 1602 podemos dizer que é uma espécie de anti-Romeu e Julieta, pois mostra a impossibilidade do amor impossível entre dois jovens que, após a primeira noite juntos, são obrigados a se separar pois durante a Guerra de Troia, Créssida será entregue aos inimigos em troca de um prisioneiro grego.

Em artigo no livro Falando de Shakespeare, Barbara Heliodora cita um artigo de Tucker Brooke no qual ele apresenta Troilo e Créssida “como um dos estudos mais sutis de Shakespeare sobre o efeito do ambiente sobre o caráter, e sua mais definitiva retratação das forças sociais operando em Londres no final do reino da Rainha Elizabeth” no mesmo artigo fala dos amantes como uns “Romeu e Julieta mais frágeis”, cuja derrota em trágicos perigos “não podia ser romanticamente glorificada como vitória moral”. Por outro lado, Sir Edmund Chambers disse que “em Tróilo e Créssida um Shakespeare desiludido dá as costas a seus próprios ideais anteriores e aos antigos ideais do mundo de heroísmo e romance, questionando-os. O amor da mulher, a honra do homem; existem eles realmente, ou serão eles apenas tênues véus que o sentimento poético elegeu para recobrir debochadas realidades da luxúria e do egoísmo?”, acrescentando que nessa peça Shakespeare retorna aos ideais enunciados em Romeu e Julieta e Henrique V, para desmascará-los, ou ao menos para mostrar que eles não eram mais confiáveis.

Em entrevista ao Programa Roda Viva em 2011, a mesma Barbara Heliodora, maior especialista em Shakespeare nesse Brasil, perguntada sobre qual a peça de Shakespeare mais indicada para ser montada no país nos dias de hoje, respondeu na hora: Troilus e Créssida. Porque fala de crises políticas graves, de conflitos internos graves, de conflitos éticos e morais que fazem com que o texto se aproxime de nossa realidade. Mas segundo Barbara é também a peça shakesperiana mais difícil de ser encenada.

O comentário de Barbara só chegou aos ouvidos de Márcio quando ele já estava ensaiando o espetáculo. Há muito ele nutria interesse pelo texto, mas o gigantismo do elenco fez com que acabasse adiando o sonho. Troilus e Créssida está longe de ser o mais popular dos textos do bardo e segundo Márcio “a peça  ficou 300 anos sem ser montada e dos anos 60 pra cá, voltou a ser conhecida. Mas acho que esse é um ótimo momento para exibi-la”, afirma.

Alefe Dourado Felipe Tanure Luiz Paulo Melhor Cardoso e Hugo Bastos Foto Marcio Meirelles

Alefe Dourado Felipe Tanure Luiz Paulo Melhor Cardoso e Hugo Bastos / Foto Marcio Meirelles

A peça de formatura do XXVIII Curso Livre de Teatro da UFBA integra a programação do Amostrão Vila Verão, que exibirá ainda: Por Que Hécuba, de Matéi Visniec; Frankenstein, de Mary Shelley e Cabaré da Raça. O que essas peças têm em comum? Todas levam a assinatura de Márcio Meirelles e a exceção de Cabaré da Raça, que em sua quarta montagem ganhará algumas modificações no elenco e figurino e é um dos maiores sucessos de público do Bando de Teatro Olodum, são todas montagens inéditas. Por Que Hécuba e Frankestein são frutos do trabalho da universidade LIVRE de teatro vila velha.

Visniec é a mais recente descoberta de Márcio Meirelles que o trouxe a Salvador em outubro passado: “quando o Vila Velha convidou Matéi para vir à Bahia, em 2013, ele me mandou umas fotos da montagem japonesa de Hécuba e gostei muito. Além disso, eu já estava fazendo Troilus e Créssida, também sobre a Guerra de Troia. Então, achei que seria um bom momento para montar Por que Hécuba“, diz o diretor.

Graças a isso o público baiano terá a oportunidade única de ver um “diálogo” entre os elencos de Por Que Hécuba e Troilus e Créssida. Márcio, aproveitando o fato dos textos terem em comum a ambientação na Guerra de Tróia e muitos dos personagens serem citados em ambos as peças, Márcio convidou alunos do Curso Livre de Teatro para uma participação especial em Por que Hécuba interpretando os mesmos personagens que vivem em Troilus e Créssida.

Não pensem que por ser mãe da criança minha opinião seja suspeita. Os que forem ao Teatro Vila Velha de 9 a 26 de janeiro vão ver um belíssimo espetáculo. Márcio Meirelles e toda a equipe de formadores desses atores-aprendizes foram incansáveis. O resultado tem sido surpreendente. O que me deixa feliz e certa de ter dado minha contribuição ao Curso Livre. E livre para poder logo após o fechamento das cortinas e das contas, entregar minha carta de renúncia ao cargo de coordenadora – fui eleita por um período de dois anos – e voltar a ser simplesmente uma professora da Escola que escolhi para ser a minha. A universidade se baseia num tripé composto por ensino, pesquisa e extensão. Em 2013 a extensão ocupou 20h dos meus dias. Quero em 2014 voltar apenas ao ensino e à pesquisa. São meus primeiros planos para 2014.

AOS FORMANDOS DO XXVIII CURSO LIVRE DE TEATRO

Marcio Meirelles e Deolinda Vilhena Foto Maira Lins

Marcio Meirelles e Deolinda Vilhena / Foto Maira Lins

Para muitos dos meus alunos eu sou a Pró Casquinha, aquela que procura pelo em casca de ovo e exige deles mais, sempre mais, muito mais. A vida vai ensiná-los de que só os bons permanecem, não serei eu a fazer a triagem, a vida se incumbirá. Eles nascem para o teatro em “berço de ouro”: dirigidos por Márcio Meirelles, estreando no palco principal do Teatro Vila Velha e abençoados pela madrinha Sonia Robatto. Veremos daqui a dez anos quantos desses que se formam com Troilus e Créssida ingressarão no panteão do teatro baiano e futuramente, quem sabe, no panteão do teatro brasileiro.

Fui buscar nas palavras da minha mestra maior, minha deusa máxima, meu oráculo mais preciso, Ariane Mnouchkine para dizer o que espero deles. Convidada para saudar a 75ª turma da ENSATT (Escola Nacional Superior das Artes e Técnicas do Teatro), ela encerra sua mensagem com o seguinte texto:

“Eu creio na imaginação, na liberdade, mas também  na pontualidade, eu creio na fantasia das palavras, mas também na cordialidade, esse mínimo da ritualização de nossa vida cotidiana. Eu creio na generosidade do jogo cênico e da ação, mas antes de tudo eu creio na generosidade da escuta. Eu creio acima de tudo na amizade que será o filtro de vocês, sua poção mágica.

Acredito que a escola de vocês não deve separar atores de um lado, técnicos de outro, mas mulheres e homens do teatro simplesmente. Uma vara, um projetor, um martelo, uma broca, um sentimento, uma boa dicção, um silencio cauteloso, uma melodia, um verso, uma escala bem colocada, isso pertence a todos. Vocês precisam terrivelmente uns dos outros. Se não quiserem compartilhar o saber, a prática, vocês serão menos fortes, menos felizes, menos satisfeitos. Eu asseguro a vocês, eu asseguro a vocês.

Acredito que a escola de vocês não deve prepará-los para entrar no Mercado, mas para o imenso canteiro de obras de um mundo melhor que, graças a arte de vocês, retomará o trabalho agora. (…) A escola de vocês não deve ensiná-los a se resignar.

Vocês não devem entrar em nenhum molde, nenhuma gaiola, seus únicos limites são aqueles que impõe o coração e a consciência de vocês o respeito ao outro, a Justiça, a solidariedade e a ternura humana.”.

Depois de ousar fazer minhas as palavras de Ariane Mnouchkine, desejo aos 32 formandos que sejam, antes de atores, cidadãos protagonistas de suas vidas. E em bom teatrês: MERDE!!!

SERVIÇO TROILUS & CRÉSSIDA

Marcela Brito Renan Motta e Babi Ferreira Foto Marcio Meirelles

Marcela Brito Renan Motta e Babi Ferreira / Foto Marcio Meirelles

Estreia: Quinta, 9 de janeiro, 19h
Texto: William Shakespeare
Tradução: Barbara Heliodora
Encenação, figurino, concepção de espaço, desenho de luz: Márcio Meirelles
Coordenação Geral e Produção: Deolinda Vilhena
Assistência de direção: Bertho Filho
Coreografia: Leandro de Oliveira
Direção Musical: Thales Branche
Elenco: Formandos do XXVIII Curso Livre de Teatro da UFBA
Quando? De quinta a domingo até 26 de janeiro
Horário: 19h
Local: Teatro Vila Velha – Av. Sete de Setembro – Passeio Público
Informações: 71 3083-4600
Preço: Gratuito às quintas-feiras (9, 16 e 23 de janeiro) e R$ 15,00 (Meia) / R$ 30,00 (Inteira) de sexta a domingo até 26 de janeiro
Fonte:  http://terramagazine.terra.com.br/patchworkcultural/blog/2014/01/03/gregos-e-troianos-vao-invadir-o-vila-velha/

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