Natal da Cidade 2013: cultura também para depois

26 de dezembro de 2013

Por Marcelo Lopes

Tempos atrás escrevi um artigo intitulado “O que OUVE de tão Ruim?” onde a reflexão central tentava dar conta do espinhoso senso do que é ou não uma “boa música”. O texto não respondia a questão – nem pretendia – e muito embora colocasse minha opinião particular de forma marcada, pontuava algumas considerações interessantes sobre o quanto a música é capaz de educar no sentido mais amplo, de forma positiva ou negativa.

20131219_235045É por isso que, fazendo referência a este texto, lembro do quanto é importante o acesso público a perfis musicais que colaboram para um avanço na perspectiva do apuro artístico. Este talvez seja o maior mérito da política de eventos da Prefeitura de Vitória da Conquista. Muito embora careça efetivamente de uma política de cultura – algo muito mais abrangente, que dê conta de uma formação e fomentos continuados, mês a mês, ano a ano, em outros setores além da música, como as artes cênicas e visuais, o patrimônio material e imaterial e tantas outras demandas que só se tornam sustentáveis em ações e projetos não pontuais – os grandes eventos promovidos pela Pmvc têm ocupado lugar de destaque no cenário baiano e nacional como um lugar de apresentações musicais que primam por aquilo que podemos chamar sim de qualidade artística.

20131221_232727A diversidade de gêneros do Natal da Cidade, percorreu os mais populares artistas da mídia, como a cantora Maria Gadú e Luíza Possi, ícones do rock de gerações diferentes como Nando Reis e Erasmo Carlos, passando por grandes nomes da MPB, a exemplo de Milton Nascimento, e pelo melhor da música instrumental com Wagner Tiso, Vitor Biglione e Nenéu Liberalquino. Entre tantas outras atrações, abriu espaço ainda para a bela voz portuguesa de Susana Travassos, em duo com o carioca Chico Saraiva, até o mais regional das manifestações locais com as disputas dos ternos de reis na Barão do Rio Branco.

20131222_235819Essa miscelânea, esta polifonia em palco aberto no meio da praça pública define uma linha de ação cujo maior legado não é, no entanto, o rol de atrações de renome, mas o exercício para os olhos e os ouvidos possibilitados pelo acesso a espetáculos que despertam algo para além do entretenimento puro e simples. A oportunidade de ver de perto estilos musicais diversos e alguns de seus principais representantes ali, ao vivo, mexe com um nível de imaginário que instiga o aprendizado, promove a curiosidade e o prazer de ouvir. No final das contas, esta é também uma ação educativa.

Por isso, não é nada curioso pensar que a programação do evento, que a cada ano ganha contornos mais interessantes, nos chama a atenção para o fato de a inoperância ou não de algumas ações públicas no país só dependerem de vontade política. Executar, fazer funcionar, ações legítimas nos mais diversos campos das atividades estruturais de uma cidade, de um estado ou de um país, demonstra que suas realizações são mais do que possíveis. Culturalmente isto também ocorre.

20131223_014154Por isso tudo, para além dos merecidos parabéns por mais uma edição do Natal da Cidade, é preciso dizer que o notável potencial de Vitória da Conquista como um município que tem eventos culturais de destaque nos impõe pensar também em avançar para além da grade de programação do próximo ano, já que a superação em muitos aspectos se mostrou possível.

Pensar, por exem20131224_220905plo, em como o turismo local pode ser acionado de forma sistemática e não como efeito colateral, com a articulação com os setores hoteleiros, de alimentação e com o comércio como um todo num diálogo institucional, sem que tudo que se colha disto seja apenas reflexo disperso da atividade; refletir sobre como, mantendo o mesmo perfil de qualidade, a população possa opinar na programação da grade de atrações; pensar como os diversos setores públicos possam efetivamente estar presentes nos eventos, com ambulâncias disponíveis, controle de endemias, rede de atenção à criança e o adolescente, vigilância sanitária e um comparecimento efetiva da segurança nas ruas; estimar como, numa linha mais longa de pensamento, se possa colher os frutos destes eventos musicais no dia-a-dia das escolas alinhadas com o ensino obrigatório de música para os alunos da rede pública (Lei Nº 11.769); refletir, principalmente, como a excelência destas atividades culturais podem ser estendidas para ações de formação contínua para o público e para os artistas da região e não somente em momentos pontuais durante o ano.

Estas são algumas reflexões que só são viáveis porque a ideia de avançar, mais que um desejo, é uma necessidade. É resultado – bom resultado – do fato de podermos experimentar coletivamente momentos de cultura em nossa cidade e por isso, pensarmos à frente, porque é isso que a arte possibilita.

Compartilhe:

3 respostas para “Natal da Cidade 2013: cultura também para depois”

  1. Roberto De Abreu Schettini disse:

    Boas reflexões, Marcelo. Faço coro.

    Saldo do Natal da cidade em Conquista: Algaravias foi lindo, ternos de reis com a força da expressão popular do sertão profundo, presépios inventivos na Régis Pacheco, show maravilhoso de Milton, de Braz. Curti como muitos curtiram, inclusive os meus. Mas agora já passou. E ainda espero o dia da secretaria de Cultura da PMVC descobrir que evento é vento. E que tanto os artistas quanto a comunidade precisam de políticas públicas estruturantes, continuadas e afirmativas para arte e cultura nessa cidade que é uma potência evidente nessas áreas.

  2. Thelos, boa reflexão embora o pseudo brilho do evento seja ofuscado pela falta de organização e de uma produção profissional nos aspectos que vc citou, além da falta de estrutura e segurança no local, só para citar esses dois aspectos. Devemos pensar cultura com profissionalismo não como mero entretenimento apenas, aí dá nisso que vemos. Muita gente e não só eu reclamando… Enfim, como estamos falando desse evento- o único dito cultural-artístico realizado pela PMVC na cidade- não vou opinar sobre a cultura e arte conquistense, pois onde não há diálogo há uma ditadura que manda e faz o que quer, portanto, como já disse no inicio, o brilho do evento já foi ofuscado e o resultado de Pão e Circo para a População deve ser o esperado. Para quem vê cultura e arte nesses padrões e com 17 anos de ausências de políticas públicas que valorizem a arte, a cultura, os artistas e a comunidade local, por parte da PMVC, não resta mais nada a dizer! Feliz Ano Novo para todos e até o Natal Cidade de 2014! Sugiro que tragam Madonna,Lady Gaga, Xuxa, e aquele rapaz que ganhou The Voice junto a celebridade que vencerá o BIG Brother Brasil, ou que ressuscitem Michael Jackson, pois nossa terra catingueira merece sempre o que de melhor há pelo pais e pelo mundo! Parabéns Conquista! Parabéns PMVC! Inesquecível!
    Pra encerrar e relembrar um post do MOVAI que já falava do Natal da Cidade em 2005. Memória encarnada e vivida. Impossível de esquecer e apagar. http://movimentomovai.blogspot.com.br/2011/03/ano-2005.html

  3. Ariana Neves disse:

    Texto límpido, sóbrio, de qualidade. Adorei lê-lo. Uma crítica altamente construtiva. Foi um evento brilhante, mas com diversos pontos obscuros a serem iluminados, brilhantemente expostos aqui. Espero que os responsáveis pela promoção da cultura na cidade possam lê-lo e absorvê-lo na busca de avanços. Parabéns Marcelo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

REDES SOCIAIS