Natal da Cidade 2013: o melhor da música em praça pública

28 de novembro de 2013

Por Marcelo Lopes

Vitória da Conquista já teve uma Rua Grande. Estendia-se da igreja matriz Nossa Senhora das Vitórias até a Primeira Igreja Batista, num longo percurso onde agora se encontram a Praça Tancredo Neves, o quarteirão da loja Insinuante e a Praça Barão do Rio Branco. Era o coração da cidade, onde as coisas aconteciam, onde a economia vibrava, onde o trânsito de tropeiros, de ideias, pessoas, tradições e rostos desenhavam o futuro em que nos encontramos hoje. Na noite desta quarta-feira, 27 de Novembro, a Prefeitura Municipal, ao tornar pública a programação do 17º Natal da Cidade, fez com que novamente a praça precisasse tornar enorme para a população.

1461380_3710096328986_1771825906_nNomes como Milton Nascimento e  Erasmo Carlos, destacados na programação, despertam exclamações quase incrédulas. Susto que não é menor ao observar na amálgama de gêneros tão múltiplos artistas que, ao contrário de um possível contraste destoante, se unem pela mesma matéria-prima que faz da música uma manifestação universal da arte humana: Nando Reis, Wagner Tiso e Victor Biglione, Renato Braz, Luiz Caldas, Luiza Possi, Duo Siqueira Lima, Nenéu Liberalquino, Maria Gadú, a portuguesa Susana Travassos e o incrível encontro de Margareth Menezes, Toni Garrido e Sandra de Sá dividindo palco numa homenagem a Jorge Benjor.

MiltonNascimentoDVDVisto de perto, nós conquistenses, temos a possibilidade – que, em tese, deveria ser um direito de todos os brasileiros – de ter acesso público a bens culturais que nos falam mais ao coração que à cintura, que nos animam mais ao espírito que ao desejo incontrolável de esbórnia. No circuito que compõe a programação do evento, é possível encontrar as vozes de artistas locais, as expressões do patrimônio imaterial da região nos presépios e nos ternos de reis (que ainda sobrevivem apesar de tudo), e ver brilharem as cores e luzes de uma tradição de enfeites e partilhas.

Vista de fora, a programação dos eventos culturais de Vitória da Conquista encontra ressonância positiva no resto do estado e mesmo fora dele pela forma como é pensada: à parte da mesmice dos modismos e de uma economia hegemônica do entretenimento que não cabe ao poder público estimular – porque esta se prolifera sozinha -, o perfil que se fundou nestes eventos foi baseado na possibilidade do acesso a uma formação cultural ampla para a população pelo contato com o que há de melhor a ser (re)conhecido na música. Não são poucos os casos de pessoas que não gostam de alguns destes nomes consagrados aqui citados pelo simples fato de nunca terem podido realmente ouvi-los e, principalmente, vê-los de perto.

18mar2013---nando-reis-em-ensaio-para-a-revista-status-1363644707083_1920x1080E como não há como discutir gosto, há como distinguir o que é educar e o que é condicionar. Se em todo lugar somos assolados pelo mesmo e insistente estilo musical, mesmo que o gosto compareça ou não ali, não existe a opção de fugir ao martelamento nos ouvidos nem escapar de ficar cantarolando uma música dessas sem querer pela persistência nos ambientes. Isto porque o condicionamento exige o mínimo de pensamento, nos faz agir pelo reflexo. De outro lado, o desafio do conhecimento e a descoberta que se expressa pela arte, traz para dentro da sensibilidade critérios mais profundos que se mediam pelos sentidos, sentimentos e pensamentos. É nesse lugar que a educação existe e persiste, não importa se numa sala de aula, dentro de casa ou na praça.

Maria GaduImaginem o quanto há de suavidade no que se aprende na voz de Milton Nascimento; o tamanho do desafio às mentes contidas nos versos intrincados de Nando Reis; até onde alcançaram a grandeza as pequenas mãos de Nenéu Liberalquino; ou quanta história trazem os cabelos brancos de uma juventude que nunca se perdeu nas canções de Erasmo Carlos. Difícil negar que a riqueza de uma programação como esta não nos encha os olhos e os ouvidos.

E já que o coração da cidade, onde as coisas acontecem, onde a economia vibra, onde o trânsito não para em ideias, pessoas, tradições e rostos que desenham nosso presente, já tudo isso não cabe apenas numa praça, há também que se torcer para que, enfim, este ano tenhamos inaugurado o novo espaço para os eventos públicos, porque a Barão do Rio Branco já não comporta sequer nossos corações. Afinal, hoje nossa Rua Grande é a cidade toda.

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Uma resposta para “Natal da Cidade 2013: o melhor da música em praça pública”

  1. Rodrigo disse:

    Tarde: Legal o site! O achei pela imagem da baita MARIA GADÚ… Alias ela está bem bonita em tal foto. Outra revelação da MPB; destaco aquela da novela A VIDA PASSA – talvez sua MARCA REGISTRADA. E que bom que nosso país se destaque na música. Valeu, Rodrigo

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