O Madrigal pode virar auditório da Educação?

9 de setembro de 2013

Por Marcelo Lopes

Cinema é um privilegiado lugar memórias. Um espaço de sociabilidades que permite que nossas experimentações com a arte, com o ver e o ouvir, com as dinâmicas dos espaços coletivos e com as histórias que delas fluem, possam ser organicamente incorporadas às nossas lembranças como atores e espectadores de um sem-número de imagens e sensações que nos acompanharão por toda a vida.

cine-madrigalClaro que a força do cinema ágil e altamente consumista – entre lojas e praças de alimentação dos shoppings – permanece hoje como outro modelo, outro circuito de sociabilidades. Entretanto, quem vivenciou os dias das salas de exibição de rua, guarda consigo um tempo, uma narrativa própria do que literalmente significa o ato de “ir ao cinema”.

Fechado em 2007, o Cine Madrigal foi derradeiro suspiro de uma era icônica dos cinemas de Vitória da Conquista; cidade que, em épocas anteriores, chegou a ter cinco salas do mesmo perfil funcionando simultaneamente. No seu fim, o Madrigal passou por todo o ritual da decadência: chegou a flertar com a pornografia num brevíssimo período; se tornou igreja evangélica, acumulou poeira por debaixo das portas de ferro e se manteve por anos como um cenário triste na rua que antes tantas emoções havia presenciado nos fins de cada sessão. Seu antigo público compôs durante todo este tempo uma plateia angustiada e inconformada, uma audiência pelo lado de fora da sala à espera de alguma notícia boa, como quem aguarda informações sobre a melhora na saúde de um amigo ou parente.

Neste mês de setembro de 2013, a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, afinada com a pressão pública de alguns setores da cultura na cidade, informou em nota oficial a desapropriação do antigo cinema com projeto de torná-lo um espaço multifuncional. Dissemos então: finalmente. A repercussão desta decisão histórica trouxe pontos positivos para a Prefeitura e gestos reais de aprovação em toda a cidade. O ato de assinatura, embora previsto em solenidade durante a nona Mostra Cinema Conquista, mas não realizado, foi garantido para outro momento.

semanapedNo entanto, passada a euforia da novidade, algumas coisas me chamaram a atenção. Em release oficial, a Prefeitura informa que o Madrigal terá gestão direta da Secretaria Municipal de Educação e USO COMPLEMENTAR da Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer. A multifuncionalidade atribuída ao Madrigal foi textualmente caracterizada como um lugar que “servirá principalmente as atividades pedagógicas ligadas à Rede Municipal de Ensino de Vitória da Conquista”, acrescentando que “a Secretaria necessita de locais para atividades de formação, palestras e que envolvam as escolas”.

O que se segue são reflexões ainda totalmente em aberto, que carecem de respostas do poder público, mas que me deixam inquieto e por isso mesmo partilho aqui. Vamos às questões:

Centro-de-Cultura-Vitória-da-Conquista1) Espaços culturais – Vitória da Conquista, embora seja a terceira maior cidade do estado, carece de espaços adequados para a cultura. Contando nos dedos, temos hoje disponíveis para atividades o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, o Memorial Régis Pacheco (ainda muito restrito para atividades não institucionais), o Teatro Carlos Jehovah (minúsculo para muitas atividades), o Parque de Exposições (gigantesco para muitas atividades) e alguns espaços novos como o Centro de Convenções da União Espírita e a Arena Mira Flores. Pontua-se um ou outro circuito alternativo, mas nenhum capaz responder às demandas ou estruturas de muitas ações culturais. Do lado oeste da cidade, não se encontra nenhum equipamento público de cultura. O caso se agrava agora com o fechamento do Centro de Cultura para reformas por tempo ainda não determinado.

2) Escolha certa (?) – Com todo deferimento às demandas da Educação em Vitória da Conquista, que, por seu porte e importância, necessitam de estruturas muito maiores e melhores para formação de professores e alunos do que as que estão disponíveis ainda hoje, não consigo conceber que justamente um espaço prioritariamente de cultura como o Madrigal venha a ser a solução.

3) Auditório Madrigal (?) – Há, aparentemente, uma decisão de tornar o Madrigal mais um “auditório” municipal, que configura uma sobreposição de demandas públicas setoriais: é sabido que o volume de ações da Secretaria de Educação absorve quase que na totalidade as pautas dos espaços que ocupam. De outra sorte, um lugar como o Cine Madrigal tem, concreta e simbolicamente, potencial para funcionar como uma âncora da cultura local, em ações que contemplariam não apenas para o audiovisual, mas também o teatro, a música, as artes plásticas, além de outras áreas culturais, sem prejuízo para ações associadas à educação (o que não ocorreria em prioridade contrária). Não me parece compatível um espaço como este já nascer com tantos problemas de espaço e planejamento.

4) Participação popular – É preciso levar em conta que qualquer outro lugar mais espaçoso (inclusive com mais salas) possa servir à Educação, mas dificilmente qualquer outro possa se encaixar tão perfeitamente às necessidade da cultura como o Cine Madrigal. Assim, há de se pensar (e torço para que este pensamento já esteja de fato na pauta da prefeitura) uma participação pública na definição das pautas do novo espaço: seja por representação no Conselho de Cultura, seja por pesquisa ou mesmo por algum fórum aberto onde possam ser ouvidas as opiniões de indivíduos e/ou coletivos de interesse direto no tema.

Meus parabéns à Prefeitura Municipal não cessam com estas questões. Acredito mesmo ser este um marco histórico para a cidade. Mas sem nos atermos bem aos rumos de uma oportunidade tão esplêndida, temo que a falta exata de reflexões partilhadas possam fazer com que o Madrigal tenha suas portas abertas pelo lado errado: erigida como ícone único da nossa cultura, realizada com um auditório qualquer.

Conheça mais sobre a história do Cine Madrigal:

Curta Madrigal de Memórias, de Patrícia Moreira

Compartilhe:

Deixe uma resposta

REDES SOCIAIS