O novo aeroporto de Conquista: a política da Fome versus a Estética da Fome

Por Marcelo Lopes

Glauber Rocha, conquistense, cineasta, pensador da cultura brasileira e latino-americana, artista e militante das esferas mais contestadoras da nossa condição de povo colonizado, era um inquieto e um inquietador. Ninguém passava ileso por ele, seja para admirá-lo, criticá-lo, apoiá-lo ou odiá-lo. E, por isso, indiscutivelmente, sua presença como um dos maiores nomes da nossa cultura é, ainda hoje, inescapável.

É em torno do que ele significa para a identidade nacional, baiana e conquistense que parei pra pensar um pouco sobre as dissonâncias que cercam o seu nome neste julho de 2019. Segue o papo.

No mês em que o novo aeroporto de Vitória da Conquista será inaugurado pela presidência da República e Governos do Estado e Município, levando o nome do cineasta, Jair Bolsonaro vem aumentando sua lista de declarações esdrúxulas com dois temas bastante (in)oportunos: a liberdade de criação do nosso cinema e a inexistência da fome no país.

No primeiro caso, a declaração feita por Bolsonaro alega que as produções do cinema brasileiro precisam passar por um controle do Estado e que, por isso, a Agência Nacional do Cinema – Ancine, órgão federal que regula as atividades do setor, será transformada em uma secretaria de governo e passará, a partir dos princípios conservadores da sua gestão, por “filtros culturais”. O segundo caso – ainda mais deslocado da realidade concreta brasileira – destaca a afirmação, feita por ele, de que é uma “grande mentira” que pessoas passem fome no Brasil e de que não há nas ruas do país pessoas com “físico esquelético”.

Enfim….

O “encontro” dissonante entre Bolsonaro e Glauber se dá num choque anafilático cultural sem precedentes. Entendam o porquê.

Glauber foi um dos principais expoentes do Cinema Novo, um movimento reconhecido internacionalmente por questionar a estética, a história e a identidade brasileira/latino americana implantada por países colonizadores, deixando de herança, ainda hoje, uma política altamente desigual para o povo. Seu cinema primava pela liberdade de linguagem e colocava em cheque toda a autoridade que visava controlar a criação artística, aquela capaz de fazer a população pensar. Não por acaso, duas de suas obras mais importantes “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (cuja imagem enfeita o piso da entrada no novo aeroporto) e “Terra em Transe” são consideradas como alguns dos filmes mais importantes do cinema mundial. Resumidamente, eles são um tapa na cara em toda a onda conservadora que impera hoje no país. Tratam de uma liberdade de pensar e fazer que Estado algum pode ou conseguiu controlar, por mais que tentaram.

Glauber também falou sobre a miséria do seu povo, uma miséria concreta e simbólica. Seu manifesto “Uma Estética da Fome” (1955), se é possível resumir, se expressa na ideia de que nossa originalidade é nossa fome, e que a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. Como disse em seu texto, “o comportamento exato de um faminto é a violência, e a violência de um faminto não é primitivismo. Uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas o colonizado é um escravo”.

NOTA: Antes que algum gênio aí diga que Glauber defende as armas –  e que por isso ele tem tudo a ver com a política armamentista que se tenta implantar no Brasil – aviso logo que o texto é mais complexo e menos óbvio que uma visão de terra plana. Há contexto e história em tudo o que foi escrito por ele, então, se você não está disposto a encarar uma leitura levando isso em consideração, não sei se poderemos avançar no raciocínio.

A violência e a pobreza andam de mãos dadas. São a expressão da negação da liberdade, do direito a ocupação dos espaços, das condições justas de trabalho, são a exploração de quem tem muito sobre quem tem menos e cada dia menos. Vem das políticas que encostam o povo na parede, precarizam sua vida. E a forma como este povo deve se manifestar precisa ser tão ou mais forte que as opressões que vive, seja por meio da arte ou pelas manifestações populares mais diversas que buscam reverter sua condição de explorado (ou colonizado, termo mais usado no período). Uma ação calcada na fome de ser atendido em direitos, uma forma de reação à violência que se vive, uma estética da fome.

Então, quando este senhor vem à terra de Glauber, pisar no solo baiano, inaugurar o novo aeroporto, há algo culturalmente surreal em tudo isso. Se falar no quanto há de provocativo. Sobretudo, quando resolve tornar isso um evento fechado para apenas 300 pessoas (uma informação que até a data da publicação desde texto ainda não foi desmentida), excluindo a população da celebração deste momento. Daí, é preciso que se diga que, de novo, Glauber estava certo.

Que ele pise firme no desenho do sol de Deus e o Diabo na entrada sabendo que, tal qual ocorreu com nosso conterrâneo, a sua presença – concreta ou simbólica – não passará ilesa à História. E que a fome que hoje ele fomenta e nega, lhe seja cobrada no tempo certo pelo mesmo povo que ele oprime.

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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