O quarto tempo da CazAzul

Por Marcelo Lopes

O diretor José Celso Martinez disse, certa vez, que “o tempo do teatro é o do eterno retorno, é nietzscheano, é o tempo do amor. Quando você está na cama com uma pessoa, você não tem ‘tempo’. Você sai do tempo, entra num outro. É a mesma coisa com a arte“.

De fato, na arte, o tempo e o teatro se conjugam, de forma corpórea, em algo mais que o relógio, se situa para além da percepção racional. Juntos, eles atingem o campo do simbólico. Passeiam por entre eles os ritmos das crianças e dos adultos, o trânsito dos risos e dos choros, a potência das narrativas de timbres diferentes ou dos silêncios que dizem muito mais, os tempos das contestações e da inquietude. Assim como no tempo, o teatro também não nos deixa passar incólumes. O adjetivo pode parecer até complicadinho, mas o resultado chega, como que pra dizer que o teatro mexe mesmo com a gente.

Então, quando fomos convidados a dizer algo sobre a 4a Mostra de Cursos Livres de Teatro (Culte), da CazAzul Teatro Escola, demos um tempo no tempo corrido e fomos lá assistir. Nas noites de 11 e 12 de dezembro, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, o foyer e a sala principal ficaram lotados de familiares, amigos, curiosos, iniciantes e veteranos e de toda a sorte de públicos para ver as cinco apresentações dos atores e atrizes das turmas infantil, juvenil e adulto, resultantes das aulas do último semestre da Escola. Quem frequenta ou já fez teatro alguma vez na vida sabe: o público é o primeiro ato da emoção.

Em “Onde Está o Amor?”, primeira apresentação do dia 11, o texto de Franciele Gomes e Joanne Vale fez palco para a sensibilidade artística e espontaneidade infantil de nove pequenos com o talento de sobra para narrarem sobre mistérios do amor, com direito aos melhores cacos da noite. Duvido que alguém tenha ficado sério nessas horas.

Numa releitura livre de Priscila Amaral para o clássico de Antoine de Saint-Exupéry, a encenação de “Pequeno Príncipe” trouxe de volta uma turminha já quase veterana. Bem marcados e com o texto na ponta da língua, alguns dos atores se revezaram entre o papel principal – opção cênica que se repetiu nas demais apresentações – fazendo com que muitos novos atores/atrizes pudessem experimentar-se mais ricamente nos palcos. A criançada terminou a noite eternamente responsável por ter-nos cativado.

Os dilemas da vida adolescente, com suas certezas para sempre e o “abaixo tudo”, foram levados para o palco no texto de Gabriel Tonin, adaptado por Yarle Ramalho, com a história de três meninas e sua avó, na peça “Hein, Tédio?“. O exercício dos espaços e as trocas de cenário ao vivo mostraram a dinâmicas das novas atrizes, já com bastante desenvoltura em tão pouco tempo de teatro.

Na quarta, dia 12, as apresentações foram marcadas pelos espetáculos mais longos, com cargas dramáticas densas – provando que, entre outras coisas, que o trabalho da CazAzul tem se desafiado ainda mais – e pela força cênica, em tons mais maturados, dos novos atores e atrizes, especialmente no revezamento dos personagens centrais.

Em “O Menino Minotauro“, texto de Luiz Felipe Botelho, os/as atores/atrizes se desdobraram sobre os complexos dilemas das pulsões humanas e instintos básicos versus contratos sociais na história de Guga (Nathália Batista/ Mateus Costa), um garoto que se vê frente a frente com os dilemas da vida adulta num tempo de conservadorismos, aprendizados, amores e filosofias de vida. Uma carga dramática considerável para um grupo de alunos que soube muito bem dar o tom à história.

Sem alisar, as ranhuras de um texto mais encorpado também foram o desafio dos seis atores/atrizes de “Cordel do Amor Sem Fim“, escrito por Cláudia Barral. O drama do sorriso perdido, esperançoso e atemporal de Tereza (Eloá Prado) e sua relação com as irmãs e um José (João Vicente Amorim) intempestivo, aproxima-se do universo de Gabriel García Marques pelos amores sem medida, e impôs aos personagens a tensão dos olhares, silêncios, respirações e tempos narrativos no corpo de seus intérpretes. Uma linda apresentação em cena. Creiam, as histórias não convenceriam se a galera não desse conta do recado.

O envolvimento dos alunos e os resultados alcançados em toda a mostra impressionaram bastante. Transitando pelos tempos da linguagem milenar do teatro, cada um, ao seu tempo, descobre sobre si e sobre seu domínio de corpo, de fala, de gesto, de insinuação ou de arcos grandiosos de interpretação. A cada semestre, o Culte avança em direção a um novo tempo de arte. Desta vez, seu quarto tempo. E, sim, tem muito amor envolvido em tudo isso.

A proposta da CasAzul cumpre um papel fundamental com seu trabalho em Vitória da Conquista. Mais do que fomentar a arte – fazendo arte – ela percebe a importância alicerçante da contínua formação nas duas pontas, do/a ator/atriz de um lado e do público de outro. Nesta quarta mostra, o tempo do amadurecimento do seu projeto, que ganha novos adeptos e reconhecimentos, se mostra mais maduro. E somos nós que colhemos os frutos.

 

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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