Se a guerra for declarada, a gente vai salvar o nosso carnaval

Por Marcelo Lopes

15 DE MARÇOJá pensaram por que, mesmo com milhares de pessoas pisando firmes nas ruas, temas tão importantes das nossas pautas políticas e sociais se perdem em meio a tanta baboseira sem sentido? Por que nossos representantes – se representando ao invés de nos representarem – maquinam apenas para mostrar quem tem mais força na mídia e nas ruas? Por que o que deveriam ser agendas políticas sérias se tornam, entre ouras coisas, brigas para sobrepor costumes de grupos segmentados e visões conservadoras (cada dia mais radicais) aos interesses mais primários da população, como direito à saúde, à educação, à cultura, ao livre pensamento e ao acesso a informações mais isentas de manipulação?

Raciocinem comigo: se a principal pauta das ruas do país nos últimos tempos é a corrupção, é preciso que se diga antes de tudo que esta não é uma exclusividade de um partido, ou mesmo do Brasil em relação ao resto do mundo, e que ela é um componente muito presente na história da formação do nosso país.

A lógica do favor e do privilégio determinaram as formas da nossa organização social, da distribuição e concentração das terras e da riqueza na mão de poucos, definindo a quem pertenciam os melhores e os piores cargos e trabalhos, as vantagens e desvantagens. A garantia da desigualdade acentuada entre elite e população se tornou nossa força motora mais comum desde os tempos da Colônia.

Em cinco séculos daquilo que conhecemos como Brasil (dificilmente levamos em conta que tivemos uma história anterior a 1500), quatro quintos foram de regime de escravidão e apenas no início do século XX tivemos efetivamente uma política que oficializou, na prática, o direito a educação para a população. Antes disso, era proibido ter escolas e imprensa em terras brasileiras.

Dito assim, não é que nossa história tenha tomado caminhos errados (porque tudo isso é muito mais complexo que um mero juízo de valor), mas seguimos por caminhos estranhos. Quando, por exemplo, todas as colônias da América Latina se tornavam independentes das suas metrópoles, constituindo-se repúblicas, nós aqui nos “desvinculamos” de Portugal para nos tornarmos um Império (???). A República que nos constituiu como Estado anos depois, não teve participação popular e dela apenas fomos comunicados. Somos assolados constantemente por coisas assim.

O próprio século XX teve pouquíssimos momentos do que poderíamos chamar de democracia, ocorrida pontualmente no entremeio de duas ditaduras, entre os anos 1945 e 1964, e novamente apenas depois de 1985. Nosso primeiro presidente eleito em processo democrático após 21 anos de ditadura militar foi Fernando Collor de Melo. E deu no que deu. Ou seja, começamos mal e ainda temos muito o que aprender.

2015-03-16 06.34.31E a questão central é justamente essa: o que temos aprendido com isso? Mais ainda: que tipo de coisa temos aprendido?

Que a educação no país nunca foi prioridade é fato visível. Informação que se desdobra em reflexão sempre é perigosa demais para quem se acostumou a mandar. Daí resulta o nosso quadro histórico geral de desinformação (ou informação desvirtuada), com estratégias sempre atualizadas, década a década. Basta olhar como a figura do professor é cada dia mais desconstruída. A figura do mestre, mediador dos conhecimentos para a vida cotidiana e social, aquele para o qual muito da continuidade do crescimento da nação se voltava, contribuindo profundamente para solidificar os rumos do desenvolvimento humano e do cidadão… Esse personagem sumiu. No seu lugar, jazem educadores que temem seus alunos em sala de aula, trabalham até a exaustão e não encontram reconhecimento nem social nem econômico. Nem entre eles próprios.

2015-03-16 06.35.09O resultado disso é que, no peso da nossa dinâmica social, quem passou a nos educar -principalmente após os muito bem pensados investimentos nos meios de comunicação e entretenimento por parte dos governos militares (1964/1985) foram as grandes mídias, sobretudo, a televisão.

Hoje, nossos assuntos mais importantes duram o tempo de uma novela. Quando não são a própria novela. Nos domínios televisivos os assuntos diários são escolhidos a dedo (sim, são todos muito bem escolhidos entre todas as dezenas de milhares de coisas que acontecem no mundo) para serem divulgados. Basta ver que as notícias que passam num canal num mesmo período são as mesmas quatro ou cinco notícias em todos os outros, com raras pequenas exceções. Informações construídas como catástrofe ou comédia. Em ambos, os tons são apresentados como entretenimento. Bailamos conforme o ritmo do dia.

2015-03-16 07.07.17Atualmente esse recorte de informação direcionada ainda sofre desdobramentos ainda mais graves. Se até pouco tempo o que a mídia difundia nos chegava numa via de mão única, e apenas recebíamos e processávamos as informações, agora, com a internet e outros meios expandidos de comunicação, nos sentimos obrigados a opinar. Vivemos o carnaval da opinião gratuita, não importa qual seja ela, se existe ou não um mínimo de sustentação no que se pretende dizer. O importante é participar, ou – como é adequado dizer – compartilhar.

10456198_10204286759672763_3048950802859043943_nEm meio a todo esse fluxo de demandas sociais e políticas reais, a onda de manifestações pelo país (que devem existir sim, porque este também é um lugar de profundo aprendizado) revela desde os mais sinceros e ponderados questionamentos ao desfile dos mais bizarros filhos da falta de uma política de educação no Brasil. É um fenômeno simultâneo a uma considerável falta geral de substância geral para uma discussão pública com efeitos e reflexões mais duradouras e profundas. Uma lacuna preenchida por reivindicações vazias, destituídas de história nacional, repleta de falta de crítica, recalques e radicalismos, abrindo a cada dia mais espaço para a intolerância.

2015-03-16 06.39.59O ciclo vicioso da falta de informação congela indivíduos no tempo, condenando-os a repetir ideias e histórias e, em muito, impedindo-os avançar. Por aqui, nos condena ao pequeno círculo da visão de mundo a curtíssimo prazo, tanto na perspectiva do passado quando na projeção para o futuro.

No final, ela nos embota a visão mais reveladora de toda essa crise política no país, aquela que revela que a fonte de tanta corrupção somos nós mesmos, que trocamos nosso voto por algum favor, furamos a fila na desculpa que a nossa urgência é maior que a do próximo, fazemos ligação clandestina de TV à cabo, estacionamos na vaga de deficientes, ou queremos, pelos mais diversos motivos pessoais (porque sempre são pessoais), levar  vantagem em alguma coisa.

Desculpe-me a esquerda, a direita e as bordas, lados da mesmíssima moeda brasileira: não acredito em manifestação real em prol do povo sem crítica contextualizada, e principalmente, sem capacidade de autocrítica. E estamos cada dia mais longe disso. Porque, infelizmente, foi assim que aprendemos.

2015-03-16 06.34.37

 

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

1 Comentário

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*