Projeto de intervenção urbana revela figuras humanas nas ruas de Conquista

11 de março de 2015

Por Marcelo Lopes

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Assim como dizia Gilberto Gil sobre o Rio de Janeiro, posso dizer que Vitória da Conquista continua linda. Mas também continua aprendendo a se perceber assim. Em parte por manter vivo ainda hoje seu jeito tabaréu de ser (o termo é pra lá de antigo, mas que cabe bem). A cidade hoje mistura traços fortes de conservadorismo provinciano com um fluxo de mudanças da dinâmica da sua vida comum, movido por um sem-número de pessoas aqui escolhem morar, pensando em estudar ou trabalhar, por uma economia forte, por jovens promessas, por um circuito alternativo de sons e outras artes e por artistas em franco processo criativo. À parte de todas as críticas que podemos fazer ao conquistense way of life seu potencial de desenvolvimento é maior que qualquer outra coisa e coloca a cidade no mapa dos melhores lugares pra se viver na Bahia. Pergunte a quem já morou em outras paragens baianas.

Entre a beleza e o estranhamento que toda mudança produz a paisagem da urbanidade é onde mais se pode sentir (e visualizar) essa dinâmica viva. E não há nada mais apto a desvelar os aspectos menos óbvios desse mundo cotidiano que observá-lo pelo filtro da arte, um apelo estético às relações afetivas com a cidade que se expandem para além da objetividade funcional dos horários nossos de cada dia.

Esse é o caminho que o projeto Paisagem Humana, da fotógrafa Rayza Lélis, vem trilhando: revelar o óbvio pela lente das suas ideias, levando a interação de seus objetos artísticos a espaços públicos, futucando e estimulando as percepções daqueles que os veem, a tempo em que vendo-os, adicionam a eles novos sentidos.

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Nos últimos dias, uma das ações do projeto, intitulada Memorial das Putas, tem ocupado diversos pontos da cidade, com painéis colados em paredes, placas muros e tetos provocando reações diversas a quem passe. Algumas dessas reações atingem diretamente esse jeito tabaréu de que falei, fazendo com que alguns de seus trabalhos fossem rasgados.

Como bem diz a fotógrafa:

“O projeto começou com uma pesquisa fotográfica sobre moradores e ocupadores das ruas da cidade, realizamos uma oficina de uma semana na Estação Juventude, produzimos imagens em oficina, e agora cá estamos, vivenciando o retorno da primeira etapa de colagem, que aconteceu nos dias 07 e 08 de março. Ao longo dessa semana as colagens continuam. Imagino que o processo vá até o dia 27 de março, quando faremos um bate-papo sobre o processo lá na Estação Juventude. A equipe flutuante, oficineiros, amigos, transeuntes, os que passavam de carro, estavam todos ali alimentando a ação. Foi bem engraçado ouvir algumas pessoas parabenizarem o projeto, as colagens, falar de cultura e beleza.”

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Nas grandes “telas” da sua arte estão postas em evidências as figuras conhecidas da cidade, como mendigos, que de tão conhecidos só são visíveis no folclore urbano. Outras, mais presentes nas noites que nos dias, se apresentam vívidas, bonitas e gigantes, putas nada tristes. Há também os comuns, os “normais” e os descolados colados às paredes. Riqueza de olhares para que olha a cidade e não a vê.

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O projeto, que tem apoio financeiro do Calendário das Artes da Fundação Cultural do Estado da Bahia / SecultBa, segue suas atividades preenchendo os espaços das vias públicas conquistenses.

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Assim como diz Rayza: “deixo aqui o site, eternamente em construção, onde já tem o mapa da exposição. Quem quiser conferir ao vivo, tá fácil!”

http://www.paisagemhumana.com/#!mapa/c1t62

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