A foto-sensibilidade no cinema de Rogério Oliveira

7 de outubro de 2015

Por Marcelo Lopes

Quanto se paga por assistir filmes? Não digo em termos monetários. Filmes de emoções baratas podem lhe custar um mundo, com impactos severos a curto, médio e longo prazo. Alijar-lhe o pensamento, entorpecer a percepção, transformar você num ser esquisito, com a exata cara e comportamento de mesmice de quem também resolveu (ou se deixou) apegar-se a filmes assim. Você se torna, sem perceber, um monstrinho do igual; levado à baila, igual aqui e ali, igual a todo mundo.

Mas tem coisas que nos redimem. Fazem-nos avançar em sentido contrário ao barato que sai caro. E essa é a verdadeira potência do cinema. Sua diversidade afetiva e estética, a experimentação da inquietação, uma urdidura complexa de emoções. Emoções essas quase sempre difíceis de explicar, mas que você sabe que está ali, que é forte (ou extremamente suave), que incita o que é verdadeiramente belo, e que, tão verdadeiramente quanto, é capaz de contagiar ao ponto fazer-nos soltar certos grunhidos não articulados, traduzidos simplesmente como uma mais que evidente satisfação. Por isso, o cinema tem lugar arte. Para alguns, como eu, não necessariamente a sétima.

Ontem (06 de outubro) assisti à estreia curta-metragem “J. C. D’Almeida – uma foto-síntese”, de Rogério Oliveira, lançado na 11ª edição da Mostra Cinema Conquista, em Vitória da Conquista, Bahia. O documentário é um recorte da complexidade simples e sensível que se personifica na figura do conquistense J. C. D’Almeida, um sertanejo provocador, que o diretor o descreve como um “franciscano entre a esquerda e a direita. Às vezes, pássaro; fotógrafo, sempre”.

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J. C. D’Almeida – uma foto-síntese, de Rogério Oliveira
Documentário, 26min, P&B, Digital/ BA, 2015.

Rogério consegue, pela mesma alma inquieta de quem olha o mundo com a generosidade da poética fotográfica, tirar do óbvio cotidiano a beleza indizível, a dramaticidade sensível das pequenas coisas. Seu trabalho reconstrói aspectos da trajetória pessoal e profissional do personagem, num processo intimista e cuidadoso, zeloso nos detalhes, sem excessos, capaz de dar voz a uma figura comum (mas extremamente conhecida) das alamedas e eventos conquistenses, empunhando sua máquina fotográfica como um telescópio para um mundo além.

DSC_0068O D’Almeida, revelado pelo diretor, é apresentado na imanência da sua arte, inseparável na sagacidade e no espírito aventureiro, seja pelas tiradas proverbiais, seja subindo em andaimes, na busca pelo melhor ângulo para o registro fotográfico, ou mesmo no rastro do sonho, que o levou a morar – com a cara e a coragem – durante dois anos em Paris.

Esses percursos biográficos vêm ocupando a reflexão de Rogério Oliveira nos últimos anos, como realizador e pesquisador. Dedicado ao estudo dos processos criativos autorais na construção fílmica dos diretores de fotografia Dib Lutfi, Edgar Brasil e Walter Carvalho, muito do seu trabalho empreende uma significativa contribuição em evidenciar, no cinema e na academia, o papel do fotógrafo como um autor em si mesmo, conectado (e nunca menos importante) de forma indelével ao eixo da produção cinematográfica.

“J. C. D’Almeida – uma foto-síntese” é a segunda obra de um projeto mais amplo, pensado como uma série de curtas-documentários (o primeiro foi “Zé Silva – uma fotobiografia“, de 2014), que o diretor vem desenvolvendo com o esmero de um artesão.

J.C. D’Almeida – uma foto-síntese (Trailer) from Mundo Tião on Vimeo.

Seu trabalho reitera a ideia que a diversidade cinematográfica, longe de ser o extremo de algo diferente – num sentido exótico – pode estar contida e tão presente quanto possível nas figuras da esquina, nas velhas histórias do tio mais velho, nos cliques imperceptíveis de fotógrafos cotidianos que eternizam momentos. E esse registro do registro, uma arte sobre a outra, é o que, na sua forma própria de narrar, estimula em nós estes sentimentos múltiplos, os tornam inquantificáveis, não-mensuráveis. Assim como não se conta os quadros por segundo na imagem do cinema também aqui é o fluxo que interessa. Torrencial, vívido, captável.

* Rogério Oliveira é professor o curso de cinema da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

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