A foto-sensibilidade no cinema de Rogério Oliveira

Por Marcelo Lopes

Quanto se paga por assistir filmes? Não digo em termos monetários. Filmes de emoções baratas podem lhe custar um mundo, com impactos severos a curto, médio e longo prazo. Alijar-lhe o pensamento, entorpecer a percepção, transformar você num ser esquisito, com a exata cara e comportamento de mesmice de quem também resolveu (ou se deixou) apegar-se a filmes assim. Você se torna, sem perceber, um monstrinho do igual; levado à baila, igual aqui e ali, igual a todo mundo.

Mas tem coisas que nos redimem. Fazem-nos avançar em sentido contrário ao barato que sai caro. E essa é a verdadeira potência do cinema. Sua diversidade afetiva e estética, a experimentação da inquietação, uma urdidura complexa de emoções. Emoções essas quase sempre difíceis de explicar, mas que você sabe que está ali, que é forte (ou extremamente suave), que incita o que é verdadeiramente belo, e que, tão verdadeiramente quanto, é capaz de contagiar ao ponto fazer-nos soltar certos grunhidos não articulados, traduzidos simplesmente como uma mais que evidente satisfação. Por isso, o cinema tem lugar arte. Para alguns, como eu, não necessariamente a sétima.

Ontem (06 de outubro) assisti à estreia curta-metragem “J. C. D’Almeida – uma foto-síntese”, de Rogério Oliveira, lançado na 11ª edição da Mostra Cinema Conquista, em Vitória da Conquista, Bahia. O documentário é um recorte da complexidade simples e sensível que se personifica na figura do conquistense J. C. D’Almeida, um sertanejo provocador, que o diretor o descreve como um “franciscano entre a esquerda e a direita. Às vezes, pássaro; fotógrafo, sempre”.

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J. C. D’Almeida – uma foto-síntese, de Rogério Oliveira
Documentário, 26min, P&B, Digital/ BA, 2015.

Rogério consegue, pela mesma alma inquieta de quem olha o mundo com a generosidade da poética fotográfica, tirar do óbvio cotidiano a beleza indizível, a dramaticidade sensível das pequenas coisas. Seu trabalho reconstrói aspectos da trajetória pessoal e profissional do personagem, num processo intimista e cuidadoso, zeloso nos detalhes, sem excessos, capaz de dar voz a uma figura comum (mas extremamente conhecida) das alamedas e eventos conquistenses, empunhando sua máquina fotográfica como um telescópio para um mundo além.

DSC_0068O D’Almeida, revelado pelo diretor, é apresentado na imanência da sua arte, inseparável na sagacidade e no espírito aventureiro, seja pelas tiradas proverbiais, seja subindo em andaimes, na busca pelo melhor ângulo para o registro fotográfico, ou mesmo no rastro do sonho, que o levou a morar – com a cara e a coragem – durante dois anos em Paris.

Esses percursos biográficos vêm ocupando a reflexão de Rogério Oliveira nos últimos anos, como realizador e pesquisador. Dedicado ao estudo dos processos criativos autorais na construção fílmica dos diretores de fotografia Dib Lutfi, Edgar Brasil e Walter Carvalho, muito do seu trabalho empreende uma significativa contribuição em evidenciar, no cinema e na academia, o papel do fotógrafo como um autor em si mesmo, conectado (e nunca menos importante) de forma indelével ao eixo da produção cinematográfica.

“J. C. D’Almeida – uma foto-síntese” é a segunda obra de um projeto mais amplo, pensado como uma série de curtas-documentários (o primeiro foi “Zé Silva – uma fotobiografia“, de 2014), que o diretor vem desenvolvendo com o esmero de um artesão.

J.C. D’Almeida – uma foto-síntese (Trailer) from Mundo Tião on Vimeo.

Seu trabalho reitera a ideia que a diversidade cinematográfica, longe de ser o extremo de algo diferente – num sentido exótico – pode estar contida e tão presente quanto possível nas figuras da esquina, nas velhas histórias do tio mais velho, nos cliques imperceptíveis de fotógrafos cotidianos que eternizam momentos. E esse registro do registro, uma arte sobre a outra, é o que, na sua forma própria de narrar, estimula em nós estes sentimentos múltiplos, os tornam inquantificáveis, não-mensuráveis. Assim como não se conta os quadros por segundo na imagem do cinema também aqui é o fluxo que interessa. Torrencial, vívido, captável.

* Rogério Oliveira é professor o curso de cinema da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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