Algumas garras expostas do mundo civilizado

18 de novembro de 2015

Por Marcelo Lopes

388856Num texto intitulado O Recital, o escritor Luis Fernando Veríssimo argumenta que uma boa maneira de tornar um conto interessante é imaginar uma situação formal, como a de um quarteto de cordas, e depois começar a desfiá-la, como um pulôver velho. Este é o espírito de Relatos Selvagens (Relatos Selvajes, 2014), do diretor Damián Szifron. Assim como no pressuposto de Veríssimo, o que existe de mais interessante no filme é a desconstrução, fio por fio, do mundo civilizado. Mas, diferente do recital descrito pelo escritor, onde o espaço categórico e a rigidez dos personagens contrastam com a ação surreal que move a história, no filme argentino a ação e os personagens estão mais que integrados ao ambiente cotidiano, e o que nos surpreende é que o absurdo emerge justamente disso. O dia-a-dia é o estopim do estouro.

São seis histórias de pessoas comuns em situações possíveis: um homem que coleciona rancores, uma filha que encontra o responsável pela destruição da sua família, um motorista que confronta o sujeito que lhe ofendeu na estrada, uma vítima da indústria da multa de trânsito, o pai super-protetor que quer livrar o filho de uma acusação de atropelamento e morte, e uma noiva que descobre a traição do marido durante a festa do casamento.

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Os episódios são magistralmente desfiados até o ponto em que as escolhas dos protagonistas se resumem em continuar a puxar o fio ou tocar fogo na roupa. Longe das parcimônias civilizadas estes fios se tornam pavios e os indivíduos não só queimam, dinamitam, envenenam, “tocam o terror” e ferem com as garras expostas como se expõem nus, selvagens e eufóricos na opção de negar o mundo que, de muitas formas, os oprime. Numa comédia muito bem produzida, eles escolhem, com primor, a tragédia e a hecatombe.

A crueza das atitudes violentas dos personagens só tem sentido porque este mundo é aquele que não inspira confiança, que a justiça é falha, o socorro não chega a tempo, o dinheiro é traiçoeiro, os pilotos de avião não garantem a segurança do voo, a polícia não prende quem deve prender e o casamento não garante o final feliz. As figuras quase alegóricas do filme, desapegadas das noções estáveis da vida, das instituições que, em tese, garantiriam a ordem social, escolhem desenhar suas próprias alternativas a partir do caos. Respondem, de caso pensado ou não, à pergunta primordial que qualquer um de nós, alguma vez na vida, poderia fazer: “por que não ver o circo pegar fogo”?

Os méritos de Relatos Selvagens não estão apenas nas ações tresloucadas e nonsense dos episódios, que por si mesmos garantem o riso com situações tragicômicas, regadas a violência e humor negro à la Quentin Tarantino. O filme respeita o tempo necessário ao engate de um humor sofisticado e costura bem os seis episódios sem usar de artifícios baratos, dando ênfase todas as histórias, que, aliás, podem ser consideradas todas realmente muito boas.

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Além do elenco talentoso – com destaque para Ricardo Darín, um dos atores mais famosos da atualidade na América Latina, e Erica Rivas, intérprete da noiva -, o filme argentino soube trabalhar bem com as emoções de seus personagens, com a passionalidade precisa de cada um deles. Isso pode se dever, talvez, a alguma influência – direta ou indireta – de Pedro Almodóvar, que juntamente com seu irmão, Agustín, são creditados como produtores do longa, pelo selo El Deseo. Com mais de três milhões de espectadores, a carreira de sucesso do filme reforça a marca das boas produções argentinas.

Como brasileiros, a força desse filme também nos coloca na berlinda para pensar sobre o que vem sendo feito da nossa cinematografia, no que se refere às comédias. Relatos Selvagens mostra que não é preciso construir narrativas escatológicas ou acéfalas como a maioria dos filmes do gênero (em linguagem de TV) que vêm ocupando nossas salas de exibição nos últimos anos. Há um abismo no Brasil, aparentemente encoberto, entre a criação para o cinema e a aceitação do público, reforçando a ideia de que o popular – para ser popular – precisa ser superficial. Não há nada mais popular que histórias que não subestimem a capacidade de diversão das plateias sem deixar de desafiar a inteligência de quem assiste (vide o Auto da Compadecida, de Guel Arraes). No teatro, na televisão, na literatura e no cinema, sobretudo, não nos faltam talentos nem recursos para mudar isso. E esta é, possivelmente, a nossa maior “tragicomédia”.

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