João Carlos Sampaio: a manhã cinzenta que ninguém esperava ver

2 de maio de 2014

Por Marcelo Lopes

 

Sempre imaginei João velhinho. Não sei se pelo queixão proeminente que, somado a um sorriso pré-irônico por debaixo da barba, lhe conferia um ar bonachão, de sujeito boa praça, como aqueles velhinhos engraçadinhos cheio de tiradas.

Por isso, o que pareceu mais uma piada em tom sarcástico do velho Janjão de Aratuípe, dessa vez não teve graça alguma. O coração imenso que a todos conquistava, ironicamente, foi também o que lhe traiu: na manhã desse Dois de Maio de 2014, o amigo João Carlos Sampaio, faleceu vítima de um ataque cardíaco fulminante.

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João era um cinéfilo apaixonado por música e um fã de música que bailava elegantemente com seus escritos sobre cinema como crítico do Jornal A Tarde. Circulava pelo país cobrindo os principais eventos cinematográficos, resenhando sobre as novidades, apontando tendências, interagindo com o que de melhor havia no cinema brasileiro. Estava em Recife, cobrindo a XVII edição do CinePE. Faleceu às 5h da manhã de hoje, no último dia do Festival, que homenageará José Wilker.

As dicas de João sempre foram ótimas (foi ele quem me recomendou assistir com especial atenção “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho) e muito desse seu olhar generoso fez parte do seu trabalho como curador da Mostra Cinema Conquista, que no segundo semestre deste ano completa sua décima edição.

10300803_575242812590729_3083332932413917279_nApaixonado pelo Vitória da Bahia, reunia os requisitos de um baiano genial: amava futebol como quem tem ciúmes de uma mulher, curtia a cultura não como uma acessório, mas como um respiro fundamental, compreendia a música da Bahia como para muito além do que chamam de música baiana, e fazia do cinema um prática sentimental e analítica, movendo-se na vida (curta!!) como um fazedor de aprendizes deste mesmo cinema que tanto amava.

Amigos, colegas, parceiros, familiares, todos receberam esta sexta-feira como uma manhã cinzenta que ninguém queria ver. Mesmo assim ela veio e só podemos agora é guardar com carinho a memória desse cara ímpar que circulou com vívida presença nas nossas histórias de vida, por maior ou menor a convivência que tenhamos dito com ele.

Porra, João… Aquela cerveja vai ficar guardada. Um abraço, meu velho!

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2 respostas para “João Carlos Sampaio: a manhã cinzenta que ninguém esperava ver”

  1. Aline Araujo disse:

    Muito interessante esse ponto de vista, ainda não tinha encontrado material desse nível. Parabéns, mesmo!

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