Jogos Vorazes e o espelho do ridículo

Por Marcelo Lopes

O nome não me estimulou a assistir. Na verdade, me repeliu por algum tempo. Evocava a ideia de mais um destes filmes sanguinários em que o conteúdo mais palpável é o jorro de sangue do pescoço de alguém. 
No entanto, minha surpresa ao ver Jogos Vorazes, do diretor Gary Ross, veio justamente por centrar essa violência (no sentido literal e metafórico) numa história que desenrola uma longa fila de outras fórmulas de entretenimento midiático – tão comuns nos dias de hoje – com especial crítica ao mundo dos reality shows. O filme já garante alguns pontos por demonstrar de forma inteligente como parecem ridículos espectadores e produtores deste tipo de atração full time, e o quão vagos são seus conteúdos. Logicamente, é preciso lembrar que o que de fato está em jogo é, ao final das contas, a questão do poder real da mídia e o que ela pode manipular, materializado no intrincado mundo do acúmulo financeiro e do status social.
O filme é a primeira parte de uma trilogia baseada nos livros escritos por Suzanne Collins, cujos títulos originais são “The Hunger Games”, “Catching Fire” e “Mockingjay”.Conta a história de um futuro distante, depois da extinção da América do Norte, que tem sua população dividida em 13 distritos. Anualmente, dois jovens representantes de cada distrito são sorteados para participar de um reality show mortal, quando tornam-se breves ídolos da mídia e devem lutar até a morte, para que ao fim da atração, só reste apenas um: aquele responsável pela morte de seus adversários.
Cheio dos chavões mais comuns da TV e do cinema, o filme uma obra válida para se discutir, não apenas pelo conteúdo, mas pela escolha da linguagem. Traz à tona os cacoetes, as frases-feitas, os dramas montados, as agremiações instantâneas construídas por “afinidades”, as solidariedades de última hora, os traumas, os sentimentos fáceis, as caricaturas e as intrigas de bastidores que povoam o filão mais rentável da televisão mundial das últimas décadas. 

Numa avaliação rápida, nos recorda aquilo que, ainda hoje, tentam pateticamente nos convencer ser o recorte em tempo real da vida de pessoas comuns especialmente selecionadas, mas que poderiam ser também um papel exercido por qualquer um de nós.

Fica a dica.
Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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