O Exercício do Olhar

Vez ou outra, escuto alguém dizendo que só intelectuais assistem aos filmes “de arte”, categoria na qual se enquadra a grande gama de filmes não-hollywoodianos, como os franceses, iranianos, alemães, chineses, entre outros.
Isso se deve, de um lado, pela predominância do filme norte-americano nas diversas janelas de exibição a que temos acesso (salas de cinema, DVDs, TV, internet), o que nivela o acesso a estilos e gêneros de filmes apenas pelo viés comercial, típico de Hollywood, e estabelece o senso comum sobre o olhar cinematográfico. Do outro, a linguagem desses filmes é construída geralmente por estruturas narrativas esquemáticas (poderíamos dizer seguramente “preguiçosas”), com fórmulas prontas, capazes de oferecer aos seus produtores um mínimo de risco ao investimento. Assim, nasceram mecanismos que garantiriam o modelo: o Star System, longo rol de atores e atrizes geradores de bilheteria pela simples presença no filme; as tipologias, como os gêneros de terror, comédia, aventura, romance, etc. que direcionam o perfil de público para as salas de exibição; e um formato de filmes que o público já absorveu há tanto tempo que mal se dá conta que foi fabricado especialmente para não se fazer notar.
Existem diversos formatos de filmes: curtas-metragens, médias-metragens, cinejornais (fora de uso nos dias atuais); documentários; filmes experimentais; e aquele que generalizamos, chamando-os unicamente de Filmes, e que são na verdade os longas-metragens (normalmente de ficção). Nesse último, persiste um mecanismo de linguagem conhecido como reiteração. Explico: a cada 15 ou 20 minutos da história, elementos centrais como “quem é o mocinho”, “quem é a donzela em perigo”, “onde ocorre a história”, “quem é o vilão” e “qual é o principal conflito do enredo” são reiteradamente pontuadas pela fala dos personagens ou quaisquer outros recursos narrativos. Observem bem e me digam depois se isso não é verdade.
Este instrumento foi criado justamente para não permitir a dispersão do conteúdo da história ao longo do filme, garantindo ao público – o que é mais importante – acompanhar a história a partir de qualquer parte do filme. Na lógica do cinema como indústria, a reiteração possibilitou que esses blocos narrativos pudessem sofrer cortes, pela inclusão de comerciais de TV ou inserção de outros produtos vendáveis nos intervalos, sem quebra ou interferência na linha narrativa da película.
Estes são alguns exemplos de fórmulas simples e eficazes que possibilitaram ao público o duvidoso costume de não ter que se aborrecer em raciocinar demais e simplesmente apreciar o que quer que fosse exibido dentro da sua linha de interesse (ou seja, aqueles tais gêneros que citei logo acima).
Desta forma, quando ouço que os ditos “filmes de arte” são coisas para intelectuais, ao invés de contrapor gratuitamente a ideia, sugiro sempre o exercício prazeroso de assistir a filmes fora da linha mais comercial, obras cujo conteúdo, linguagem, abordagem e estilos nos proporcionem outro tipo de entretenimento. Equivale dizer que cinema é um grato processo de educação, que nos permite avançar no conhecimento do mundo, nos abrindo imensas possibilidades da percepção de outros universos. Invariavelmente, esta tarefa é uma grata experiência.

Então, aí vão as minhas sugestões. Assistam com carinho; a nota quem vai dar são vocês.

Cinema Paradiso (1988, Itália, Giuseppe Tornatore)
Blow Up (1996, Itália/Inlgaterra, Michelangelo Antonioni)
Amarcord (1973, Itália, Federico Fellini)
O Fabuloso Destino de Amilie Poulain (2001, França, Jean Pierre Jeunet)
Jules e Jim (1962, França, François Truffault)
A Excêntrica Família de Antonia (1995, Holanda, Marleen Gorris)
Lanternas Vermelhas (1991, China, Zhang Yimou)
Dersu Uzala (1975, Japão, Akira Kurosawa)
Filhos do Paraíso (1997, Irã, Majid Majidi)
O Balão Branco (1995, Irã, Jafar Panahi)
Mar Adentro (2004, Espanha, Alejandro Amenábar)
Carne Trêmula (1997, Espanha, Pedro Almodóvar)
Asas do Desejo (1987, Alemanha, Win Wenders)
Corra Lola Corra (1998, Alemanha, Tom Tykwer)
A Festa de Babete (1987, Dinamarca, Gabriel Axel)
Dogville (2003, Dinamarca, Lars Von Trier)

Fonte: http://www.vitoriadaconquista.com.br/2010/12/14/o-exercicio-do-olhar/

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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