A Ilha do Brasil Anterior

4 de dezembro de 2017

Por Marcelo Lopes

Em “A Ilha do Dia Anterior”, de Umberto Eco, um dos personagens centrais da trama encontra seu fim no inferno. Diferente da imagem do inferno habitual, este círculo das profundezas, em especial, destrói aquilo que nos constitui como seres humanos ao provocar uma agonia permanente, impondo – sob todos os aspectos da percepção humana – uma definitiva, extensa, profunda e eterna existência pela total paralisia de atitudes, uma letargia existencial, um não-se-importar infinito. Nada para mudar, nada para crescer, nenhum antagonismo, nenhuma evolução. A desconstrução absoluta do homem/mulher.

Até um tempo atrás esse era um inferno que eu temia e queria passar longe. Hoje, olho ao redor e vejo um país inteiro assim. Com poucas exceções, mas sem Ibope. Aliás, “Ibope” também não é boa referência. Mas vocês entenderam.

Foto: Rafael Flores

Mas este é um prólogo mais ou menos elaborado apenas pra dizer que, no meio dessa infernal letargia brasileira/ baiana/ conquistense, me solidarizo com Gilmar Dantas, e sua postagem sobre como o Festival Suíça Bahiana, embora muito bem organizado e com uma grade fantástica, tenha dado um prejuízo considerável na edição de 2017. O evento, com nomes diversos e bem posicionados na nova cena da música alternativa brasileira, tendo artistas como Barro, Dead Fish, Pedro Pondé, Djamba e Mombojó, entre outros, não foi capaz (e quem seria?) de mobilizar um público médio de quinhentas pessoas em cada uma das três noites do festival, mesmo com ampla divulgação e nenhuma outra atividade similar concorrendo na agenda da cidade. Um fenômeno de ausências que vem ocorrendo em vários lugares do país com eventos similares. Observando bem, ausências em vários espaços da vida brasileira. O que explica isso? Talvez, que esse modelo de inferno tenha, efetivamente, chegado aqui. Parei pra pensar um pouco.

O fato é que vivemos num mundo cada dia mais egóico, individualista, erguido sobre imensas e ocas pilastras virtuais. Mas não é gratuito, há muita história aí. Para nós, brasileiros, isso significa o topo de um processo que nos levou ao não-se-importar cada dia mais disperso nos mais diversos níveis da vida privada e pública. Na primeira instância, porque parece que ninguém tá nem aí pra nada. Embora as pessoas sejam cada dia mais individualistas – seja porque a vida endureceu e ficamos sem tempo, lutando para sobreviver, trabalhando mesmo sem “trabalhar”, conectados 24 horas por dia, seja por razões que somente o próprio umbigo explicaria – essas mesmas pessoas não conseguem ver que estão, irremediavelmente, presas numa ciranda de auto boicote, explorados como sempre, sem ferramentas pra resistir. Entre outras razões porque “desapegaram-se” do fazer coletivo real.

Na esfera pública, as razões para essa letargia social se tornam cada dia mais presentes: quanto mais a população apenas se manifestar virtualmente melhor, já que a vida, os acordos da corte e o dinheiro que corre por fora (e que definem o que se faz ou se deixa de fazer no país) é muito mais palpável pra quem manda do que para quem é mandado.

A apatia que vemos hoje foi estrategicamente estimulada, sobretudo quando o Brasil trocou um considerável investimento que seria bem utilizado na educação pelas implementação de um parque gigantesco de telecomunicações nos anos 60, regando generosamente a semente da nossa dependência midiática. Essa política, que durante década trocou uma educação concreta em sala de aula pela TV, gerou a nossa falta de instrumentos de crítica para perceber o quanto nos tornamos superficiais, sem ferramentas para perceber direito nosso passado nem projetar um futuro, mesmo que recente. Nos vem tirando o sentido de importância quanto a questões como o direito à liberdade, o respeito à diversidade, a tolerância com o que é diferente de nós. Temas que vem se tornando paulatinamente mais vagos, limitados, em grande parte, a postagens no Facebook. Discutir sexualidade, política, questões raciais, história do país e do mundo passou a ser ameaça nas escolas, nas ruas e nos grupos familiares e de amigos.

E vejam só: a arte/cultura passaram a ser – ainda mais – de interesse geral da nação, prioridade total, mas para serem cuidadas depois, claro, porque temos outras coisas mais importantes pra resolver. E que não se resolvem. Aparentemente nunca, que dirá as pautas públicas para estímulo à nossa cultura. Porque a educação e a cultura, molas promotoras da emancipação de pensamento, não são interessantes. Fazer conhecer, fazer pensar, fazer questionar é perigoso. E vamos construindo e dando manutenção a um mundo de apatia, onde é muito fácil dizer e apoiar as coisas virtualmente, criticar com opiniões sem se preocupar com argumentos sólidos, emancipar-se nas redes mantendo-se preso às velhas práticas, criando uma ilha de novidades requentadas de um Brasil anterior, arcaico. Uma renovação/atualização infinita do mais do mesmo, das mesmas coisas, dos mesmos sons e músicas, das mesmas opiniões, do mesmo país de pouca mobilidade social, cultura e educação.

Então, quando eventos como o Festival Suiça Bahiana pagam o preço por pensar alto, por persistir nas pautas da diferença, vemos o quanto nossas atitudes, instrumentos de pensamento e capacidade real de mobilização, neste país de paralisias, estão niveladas por baixo. O quanto deixamos de ver, de sentir, de amar, de se importar, o quanto guardamos sentimentos que não nos escapam mais, se não pelo meio virtual. O quanto ir para um show que nos faça sair da mesmice, para uma reunião de amigos reais, concretos, ou para as ruas reivindicar o que nos é de direito, parecem niveladas pelas mesmas pautas da paralisia. Se para Sartre o inferno são os outros, acredito mesmo que, nos últimos tempos, o inferno somos nós mesmos e nossa provocada apatia pelo mundo.

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