Isto não existe por um passe de mágica

Por Marcelo Lopes

Não por vontade, mas por fazer do meio cultural, por me atentar para inúmeras manifestações populares, por participar (por trabalho ou de forma pessoal) de atividades diversas, enfim, por andar no meio de gente, é que, infelizmente, algumas coisas que vejo só comprovam que quanto menor o cuidado com a educação das pessoas, maiores são as formas bestiais com se comportam.

Entendam educação como uma expressão ampla de aprendizagem, com o corpo de uma moeda, em que de um lado há aspectos que realmente ensinam e desenvolvem de forma construtiva, aperfeiçoam os sentidos e o intelecto, tendem a melhorar o convívio pessoal e social. E também existe o seu contraponto, talhada na ausência dos elementos desta primeira e que, entretanto, também educam: são manifestações das lacunas do desrespeito, da sobrevivência imediata, tem referências próximas ao instintivo – e deste modo chega a ser animalizado em seu pronunciamento, mais que os próprios animais -, são as formas do egoísmo, do “meu primeiro”, que fazem com que se pratique atos sem consideração ao outro e a si próprio. Este outro lado que também (des)educa, é moldado em tudo o que é fácil, na escolha do esforço mínimo em substituição ao ato de pensar.

banda

É neste nível que trabalha um meio tido como cultural, que sobre nós despeja regular e insanamente um volume incontável de determinados produtos sem o menor critério de qualidade educativa (no sentido positivo e pode ser de fato mensurável) e nos presta o desserviço de tornar nossas vidas um desfile surreal de absurdos.

ÍndiceNeste rol seguem o hábito das telenovelas, tão enraizadas no nosso cotidiano que deixaram de ser entretenimento para serem talvez a maior narrativa discutida da nossa pauta social; o consumo desenfreado de produtos que não precisamos (pré-sucatas), que só nos estimula o desejo de compra, mas sem utilidade real (faça uma checagem no quanto cada um de nós os compra sem necessidade verdadeira); e os subprodutos musicais que vivem exclusivamente do apelo fácil e sem conteúdo, que se valem de algum ritmo (qualquer um que provoque instintos básicos com um tecladinho e uma percussão meia-boca), e que, principalmente, não tem respeito com o próximo e infestam o que chamam de música de toda sorte de abusos auditivos e textuais.

Afirmo que este não é um discurso de teor moral, mas de saúde pública. Analisem: essas “submúsicas” escolhem os piores aspectos da convivência social e as enaltecem com palavrões sem criatividade (sou a favor do palavrão, mas mesmo palavrões para o efeito artístico estes exigem certo grau de talento), elegendo temas que todos conhecemos: são mulheres “acachorradas” e sem calcinhas, bebedeiras sem-fim, descrições e refrões pornográficos (quando não são só monossilábicos sem sentido), atitudes machistas que incitam a violência e mesmo o estupro.

a305c97f1f35redA música tem efeitos diretos sobre o corpo, o comportamento, a sexualidade e estimula imaginação de uma forma privilegiada. Educa os corpos, e, portanto, o cuidado com ela é fundamental. Ao associá-la a determinadas atitudes há a contribuição direta para uma reprodução do ato, seja coreográfico, seja no impulso que ela estimula. Esta é uma responsabilidade desconsiderada, sequer pensada por boa parte pelo mercado que absorve estes estilos musicais.

Este é o caso de muitas bandas pelo país, e no nosso caso conquistense mais específico, o do recente vídeo de uma banda que ironicamente decidiu chamar-se Abrakadabra. O termo “abracadabra” (o “k” usado pela banda não faz diferença na concepção da palavra) vem aramaico “adhadda kedhabhra” ou, como ficou mais conhecida, “avada kedavra”, da série Harry Potter, que significa literalmente “destrua-se” ou “que seja destruído”. O fato é que, em termos reais, a destruição parece perseguir não apenas este, mas outros tantos grupos similares. No sentido de “arrasar”, eles desconstroem valores; na busca por “arrebentar” eles massacram nossos ouvidos com toda sorte de asneiras; na intenção de “explodir na mídia” se prestam a tudo o que acham “que o povo gosta”. Muitas vezes a defesa do “o que o povo gosta” é o equivalente a acreditar que o professor deve se submeter ao “que o aluno quer”, ao “que o Estado diz”, ao que “a igreja prega” sem questionar. É não levar em consideração que aquilo que “o povo gosta” é resultado daquelas lacunas na educação que permitem que bandas deste perfil sejam o exemplo material do esvaziamento das nossas preocupações sociais, políticas, religiosas, educacionais, geracionais e culturais.

abra1A repercussão do vídeo trouxe novamente, mas não definitivamente, o assombro. Mesmo tão torpe, músicas como estas – que incitam a violência e o estupro – são promovidas nos meios musicais com a conivência de muitos setores do entretenimento que as classificam como adequadas ao consumo.

 Aos que se filiam à onda da “tempestade em copo d’água”, que acham que é exagero ou muito barulho por nada, uma reflexão: essa é uma atitude típica da inércia que vem da preguiça de pensar onde estão as raízes de fenômenos como este, porque e como estas coisas se repetem e qual o papel da educação – ou da falta dela em tudo isto. Afinal, explicar que é tudo uma tempestade em copo d’água é fácil, difícil é compreender porque se acha isso.

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

2 Comentários

  1. Parabéns, Marcelo.
    Finalmente uma voz para chamar atenção para uma questão tão seria. Que é a responsabilidade da sociedade no que diz respeito à lacuna na educação. De fato é essa lacuna que está produzindo todo esse lixo, não só musical, mas de toda ordem, que vemos atualmente.

  2. Grande Marcelo! Você sabe, parceiro, o quanto nós sempre nos esmeramos para desenvolver um senso crítico que como você falou pudesse ir “onde estão as raízes dos fenômenos”. Concordo com tudo que estruturou no texto, nós sabemos o quanto a educação (no sentido amplo) é capaz de educar, mas também de(des)educar os cidadãos. Mas, incomoda-me, o tom quase sempre ressentido dessas avaliações. Ao meu ver é sempre aquela postura do professor-intelectual amargurado no pedestal da racionalidade ocidental. Entende isso? Sempre tenho a impressão, lendo esses textos, que fica ausente uma sensibilidade capaz de lidar com tais fenômenos sociais de forma mais abrangente (forma que escapa à racionalidade acadêmica). Vi o clip e, sinceramente, observei apenas descontração, alegria e entretenimento. E olha que sou Metal!!! Esse papo, você sabe, vai longe, mas minhas colocações são mais sadias do que as postadas acima, do tipo “texto brilhante”. Isso sim é vago e se parecem com tais músicas!

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