Juliana Ribeiro e a Bahia secular

Por Marcelo Lopes

 Sentei para escrever e a frase veio redonda: “a primeira vez que ouvi Juliana…”. Pareceu um início de poema. Talvez seja mais do que condizente começar assim, poeticamente, com palavras tão leves sobre uma das artistas baianas que mais me impressionou nos últimos anos.

Juliana-Ribeiro.-Foto-Léo-de-AzevedoE foi verdade: a primeira vez que ouvi Juliana Ribeiro foi num show em Vitória da Conquista, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima. Não a conhecia nem ao seu trabalho que, de tão profundo, levou sentidos amplamente musicais à percussão que me bombeia sangue no corpo. Dona de uma voz potente e doce, de um carisma que atrai a atenção pela sinceridade e pelo dom de saber o que falar e cantar, foi no show “Amarelo” que senti a presença real do real espírito de uma artista que representa a música baiana de maneira forte, sem precisar depreciar o que há de melhor na capacidade de fazer o público dançar.

Expoente no cenário da música da Bahia, neste Verão de 2014, foi nome marcante na programação cultural da cidade de Salvador, com sua performance marcante nos palcos. Esteve à frente do projeto Amarelo-Verão, realizado pelo terceiro ano consecutivo, teimando – na mesma luta diária de todo artista e produtor cultural – em levar às plateias um trabalho que, por mérito e vigor, deveria ser prioritário como forma de estímulo a uma cultura que, infelizmente, não é vista como investimento público.

vitamia mp3 - Juliana RibeiroNo último mês de março, a artista foi umas das seis convidadas a participar do show Elas por Elas, idealizado pela Prefeitura de Salvador, em homenagem ao mês da mulher. Dividiu o palco do TCA com grandes nomes como Rosa Passos, Jussara Silveira, Rebeca da Mata, Inaicyra, e Marcia Castro, numa apresentação emocionante e muito aplaudida.

Juliana Ribeiro ganha pontos ao fazer da sua música um veículo de divulgação da pesquisa a que se dedica há alguns anos como historiadora e mestre em Cultura e Sociedade: desnuda as origens do samba num repertório que engloba três séculos de canção – do XIX ao XXI -, contando a história desse nosso particular ritmo brasileiro entremeado por outros como o Lundu, o Jongo, o Maxixe, os Sembas Angolanos, o Batuque e os Sambas-de-Roda.

O repertório do CD “Amarelo” diz muito sobre quem canta e o lugar de onde fala. Traz músicas de domínio público, cantadas na tradição oral durante dezenas e dezenas de anos, letras de João da Baiana, J. Velloso, Leci Brandão e Reginaldo Souza (figura incrível, morador do bairro de Itapuã e compositor de mão cheia), além de canções da própria Juliana.

Para quem ainda não a conhece, vale um recado: a primeira vez que se ouve Juliana, é impossível sair ileso… esse som pega, cumpadi. Que já ouviu, sabe.

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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