Quem (en)canta nossa infância?

Por Marcelo Lopes

Passei o dia ouvindo Palavra Cantada, uma das propostas mais interessantes de músicas para o público infantil das últimas décadas, que tratam com respeito, inteligência e muito talento o universo dos pequenos. Formada em 1994 por Paulo Tatit e Sandra Peres, a dupla se destaca por canções infantis de linhas marcantes, com um cuidado especial na construção das letras, arranjos e gravações, envoltos numa sensível poética imaginativa. Um primor.

A exemplo da dupla, ainda é possível encontrar compositores com ideias criativas voltadas para esse público, entre eles, nomes conhecidos, como Arnaldo Antunes, autor de “Lavar as Mãos” e “Criança não Trabalha”; Adriana “Partimpim” Calcanhoto, interpretando, entre outras músicas, “Oito Anos” e “Trenzinho Caipira”; a banda Patu Fu, com um trabalho inteiro dedicado ao seu “Música de Brinquedo”, inteiramente gravado com instrumentos musicais de brinquedos como cornetas de plástico, xilofones, cavaquinhos, flauta doce, kazoo, glockenspiele outras peças da musicalização infantil. Infelizmente, a lei de mercado não favorece que coisas assim se multipliquem com a mesma proporção da sua qualidade.

Em tempos de politicamente correto – onde tudo traumatiza, aleija, ofende, dá processo e vira debate público – ter e fazer músicas infantis de qualidade é um desafio mais ingrato que os obstáculos da velha Censura, que vigorou no Brasil até 03 de agosto de 1988. Penso nisto, não sendo purista, mas comparando dois períodos completamente diferentes, em que o critério de mediação é a qualidade de conteúdos que propiciam uma vivência saudável para cabeça das crianças que, em qualquer época, é e precisam ser crianças pra seres felizes.

Por isso, comecei a fuçar minhas lembranças… e a de outros também, pra não dizerem que a “nóia” sobre isso é só minha. Um dos registros mais gratos que tenho da infância, quando se trata de memórias musicais, se chama “A Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes. Não apenas a gravação em disco, mas também os especiais de televisão, que traziam para a telinha as incríveis histórias musicadas do universo sonoro do “poetinha”. Um ímpeto criativo similarizado hoje por alguns artistas consagrados, dedicado a um olhar generoso capaz de povoar de sonhos o imaginário de milhares de crianças. Canções de Vinícius como “O Pato”, “A Casa”, “A Porta”, entre outras, se tornaram clássicas. Tratavam de temáticas simples, tangenciadas e extraídas de um mundo menos complicado, onde a garantia de felicidade podia estar numa simples partida de bolas de gude, num peão, jogos de pega-pega na rua, esconde-esconde, ioiôs para meninos e ou elástico, salada-mista e amarelinha para as meninas. Para não falar apenas de minhas impressões pessoais fui buscar em outro lugar considerações que acredito pontuarem bem o que digo.

Aretha Marcos, cantora, filha dos também cantores Antonio Marcos e Vanuza, viveu esta mesma época, com uma peculiar característica em relação às demais crianças: era ela quem estrelava na TV especiais infantis como A Arca de Noé (1981), além de outros que se seguiram como Pirlimpimpim(1982), Plunct, Plact, Zuuum (1983), Plunct, Plact, Zuuum… 2 (1984) e Pirlimpimpim 2 (1984). Suas memórias incluem um misto de diversão e trabalho. Principalmente, um afetuoso e respeitoso momento à condição da sua infância: “Minhas melhores lembranças ficam por conta do contato com o universo mágico da palavra poética do Vinícius, que se fazia entender por mim já naquela época”, resgata Aretha, ressaltando “o contato com os artistas e profissionais da época, que faziam de tudo para manter meu olhar infantil e lúdico diante de responsabilidades tão grandes para uma criança”.

Nos últimos anos vivemos um fenômeno maciço, preocupante, que encurta a infância, gerando pequenos adultos, ao tempo em que estica a juventude englobando todas as ideias, práticas e comportamentos envolvidos nessa longa faixa etária espichada. Um providencial aumento na faixa ativa de consumo de produtos, bens e serviços. A sexualização infantil é um dos aspectos agregados à este novo perfil consumista, como também é o aumento da banalização dos temas dedicados às crianças, reflexo daquilo que os pais também consomem e reproduzem em casa. Na música, veículo de excelência para a comunicação de comportamentos, é visível o pouco trato com o que se produz ou se oferta às crianças no Brasil. Ainda segundo Aretha, “existe público para todos os gostos, por isso mesmo deve haver música eclética, sempre visando a prestação de serviço cultural, educativo ou festivo que pede a canção infantil. Acho também que cabe aos pais selecionar aquilo que considerar adequado para os seus valores e crenças a ser compartilhado musicalmente entre seus filhos”.
A oferta de produtos culturais/musicais voltados para este público tão ávido, que consome cada dia mais rápido enquanto cresce, tende à expansão ainda maior e desenfreada se não houver regulação específica. Músicas de evidente apelo ao sexo, à violência ou que promovem a degradação humana são facilmente acessíveis e – pior – estimuladas em meios de comunicação e outras forma de difusão, sem o mínimo critério prático. A aproximação entre a criança-adulta e adulto-juvenil dilui estas questões no discurso do “normal” e do “na moda”, sem levar em conta os prejuízos decorrentes disto. É preciso que haja uma mediação equilibrada, que não se calque nem na paranoia do politicamente correto e nem no desbunde do consumo fácil. Todas as opções, daquilo que pode ser considerado bom ou ruim, estão à vista e à mão.
Ao poder público cabe regular, nunca censurar. Aos pais, o discernimento do que há de benéfico ao olhar, os ouvidos e a mentalidade das crianças, com critérios que mexem com a crítica autocrítica, fundamentada numa educação que muitos nem mesmo puderam ter, mas que é alcançável na medida do bom senso de cada um. O respeito é componente fundamental ao critério de ambos, sobretudo o respeito que preserva a criança em sua essência.

De alguma forma, é preciso resgatar a importância da sabedoria infantil, mesmo nos adultos, tema que, inclusive, finalizou meu papo com Aretha: “para mim o positivo e negativo está em tudo, é uma questão do olhar. Ser criança é um estado de alma. Acredito que independente de idade, devemos manter a criança no canto dos olhos, pronta para saltar diante da vida e fazer folia. A vida é uma festa onde todos podem ser convidados, é preciso ser criança para acreditar, e vencer”.

Meu abraço sincero e agradecido a Aretha pelas boas lembranças de infância… dela e minhas.
 

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 262 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

5 Comentários

  1. Valeu, Débora…

    Cada um de nós tem o seu tempo… nosso papel é mediar e possibilitar a melhor vivência para os nossos filhos. Existe muita coisa que vale à pena hoje em dia que, se fosse possível quando era criança, eu bem que queria ter experimentado. O sensível é perceber o tempo (o melhor tempo) de cada um de nós.

    Como diz a letra da canção de um amigo meu, um verdadeiro artista com as palavras, o cantor Alisson Menezes:

    “O tempo traz
    o tempo dá e toma
    toma, cria atalhos no destino
    e faz assim o meu pensar de homem
    se vestir novamente de menino.”

  2. Que texto fantástico! Me deixou saudosista pelo meu filho. Como assim? Como pode ser saudosista por uma criatura que nem sequer passou pela situação e quiçá passará? Será que isso não é antecipar um sofrimento, me pergunto? E logo me vem a resposta a cabeça: não! Meu saudosismo é, talvez, por medo deles nunca serem o que somos, simplesmente por falta dessa infância “perdida” na adultização das nossas crianças, tão crianças… #belotexto

  3. Mais uma vez, perfeita a sua crítica Tchellãos. Além de reconstruir uma volta ao passado, conseguiu fazer uma belíssima comparação dos tempos, sem cair na tentação dos radicais/revoltados, que gostam de achar culpados ou de pôr a culpa em alguém. Concordo plenamente que o papel dos pais é fundamental para esse resgate e fazer com que os nossos filhos vivam a infância deles como crianças e não como pequenos adultos. E adorei as palavras de Gheu também. Essa frase então, perfeita: “Eu também sou muito saudosista quanto à infância. Eu era feliz e sabia. Eu só não sabia que acabava…”

  4. Lindo texto, Gheu…

    Tudo o que somos é resultado das vivências e memórias que acumulamos… é a partir delas que resignificamos toda nossa vida útil e simbólica.

    E é a partir dessa percepção que temos que ser generosos e críticos com o mundo ao nosso redor, para podermos nos perceber melhor no meio dele.

    Um bjo, Gheuzinha! Valeu!

  5. agora eu era

    eu era a mãe e você, bem maior, era o filho, mas que importa?
    eu era a mãe “braba”, que ensinava a tarefa, batendo muito na mão quando você errava, e depois eu te dava suco (ki-suco ou imaginário mesmo) no conjuntinho de xícaras em miniatura com bolo igualmente de mentirinha.

    mas dia que tava chovendo, era papai que sentava todo mundo na sala e a gente ficava só ouvindo histórias. Isso depois da gente ter passado o dia todo tomando a milagrosa chuva lá em Caetanos (onde quase nunca chove). Nunca, jamais vou encontrar alguém que conte histórias melhor que meu pai. Outros podem encontrar, mas aquele era O meu pai, O meu contador de histórias, com histórias que nunca encontrei em nenhum lugar, nem mesmo com a nossa bela internet, nem mesmo com o monstruoso Google.

    Eu também sou muito saudosista quanto à infância. Eu era feliz e sabia. Eu só não sabia que acabava. Como diz Borges, o Jorge Luis, eu era eterna.

    O seu texto me chamou a atenção pra o fim da infância de novo. Como não pensei nisso? Eu hoje dou aula de literatura infantil e o que mais escuto e o que mais leio e o que mais digo é que precisamos proteger a infância… Ledo engano!

    Você tem razão, Tchellos, nossos alunos, nossos filhos, nossas crianças estão ficando adultas cada dia mais cedo, não porque elas não brincam com os nossos brinquedos… eu até que gosto muito dos brinquedos novos e de histórias novas (embora não esqueça as do meu pai). Mas porque, como você mesmo disse, estão (estamos) seduzidos (ou dominados) pela sociedade de consumo que, precisando de mais consumidores, torna os nosso pequenos compradores implacáveis. Há que se pensar direito sobre isso. Obrigada pela sacudida nos ombros da pró aqui!

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