…Dado à palavra

24 de julho de 2015

Por Marcelo Lopes

Num tempo em que tudo são leituras “importantes” – cartazes de rua, folhetos de venda, narrativas de telejornal, postagem em celular – manter-se autor/leitor de livros é um ato de resistência e rebeldia. Como, aliás, sempre foi preciso ser. Hoje, na escassez de uma desejosa pátria de rebeldes, encontrar-se para falar de livros ainda é um dos atos compartilhados mais prazerosos e necessários. Para fazer isso, não importa o lugar: na aula, sentado no meio-fio de uma ruazinha qualquer, no vaivém do metrô, na sala da casa de alguém, no boteco. A celebração de ler, uma espécie de vale-sonho, não deixa ninguém sozinho no mundo.

thumb_IMG_0145_1024Na noite do dia 21/07 o caminho para essa companhia letrada foi à base de cerveja e amigos, no lançamento do livro “Saveiros de Papel”, do poeta Dado Ribeiro Pedreira, publicado pela editora Mondrongo. Trazendo na bagagem a percepção aflorada do recôncavo baiano, ali pelas terras de Santo Amaro da Purificação (BA), Ribeiro Pedreira, esse moleque barbudo que conquista amizades por onde passa, transpôs para o livro recortes desse seu universo inquieto e sorridente, fazendo valer, na prática, sua ideia de que “toda pessoa é um texto”.

Cumprindo os ritos, a noite na cervejaria Mata Branca foi de autógrafos, abraços e poemas. O anfitrião, agregador, partilhando da felicidade de quem escreve, me fez lembrar ainda mais que a palavra escrita não só reúne amigos: ela é capaz de sacudir o cotidiano, numa tensão/distensão que só a leveza da leitura pode trazer.

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Ler e escrever são lados de um mesmo universo de criação, conexão e afetos.

Dominar a palavra às vezes requer gracejo, às vezes chicote. Na luta passional entre o autor/leitor e a letra os limites de cada um são testados diariamente. Há quem a conduza à valsa, há os que dela consigam tirar um hip hop, um samba, um ritmo viral ou uma sonata centenária. A literatura também tem seus tempos e temperos.

Para nós que os lemos – escritor e escrita -, não importa que este processo seja um circo de labaredas ou um mar de serenidades; dadas as faíscas ou as gotas, o resultado sempre busca alcançar nossos sentidos. E se, de fato, no fim, a palavra importa para seguirmos além da mecânica dos dias, ela nos modifica assim que nos toca.

thumb_IMG_0175_1024Os recém-nascidos saveiros de Ribeiro Pedreira cumprem esse papel: agregam, transformam, incitam, transgridem, progridem, fomentam, alimentam, juntam. E nessa hora (como ocorreu no sarau que deu sequência à programação da noite) não há muita distância entre autor e leitor. Ambos se encontram nas letras, pelas mãos que redigem ou pelas bocas que pronunciam, porque no fim tudo é poesia, a arte comum de não ser a mesma coisa de sempre.
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Uma resposta para “…Dado à palavra”

  1. O texto além de certeiro é muitíssimo bonito

Deixe uma resposta para gustavo felicíssimo

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