Minhas memórias de João Ubaldo: uma feliz crônica de tristeza e mau humor

18 de julho de 2014

Por Marcelo Lopes

Estávamos atrasados. A balsa era logo ali, mas eu ainda não havia achado outro exemplar nas livrarias próximas, e precisávamos sair logo para não ficar muito tarde. Nosso compromisso era inadiável, impreterível, improrrogável, urgente, urgentíssimo, mas não podia sair dali sem comprar mais um dos livros para levar. No meio da correria, o celular não parava de tocar e eu atendia, já meio irritado, dizendo  “ tô saindo! tô saindo”. O funcionário no balcão – que demorava horrores para passar o cartão – já finalizava a compra, quando o toque de celular ocupou os últimos espaços da minha calma. Tirei o aparelho do bolso, disposto a soltar outra coisa que não mais um “tô saindo”, mas fiquei branco com o número e o nome do contato que apareceu na tela: era João Ubaldo Ribeiro.

Em meados de 2013, minha cabeça andava funcionando a mil enquanto colhíamos histórias incríveis nas mais diversas regiões da Bahia, durante a primeira fase da produção do documentário Contra o Veneno Peçonhento do Cão Danado, meu primeiro curta-metragem em cinema, que registra inúmeros “causos” sobre pessoas que, segundo a crença popular, eram capazes das mais diversas façanhas sobrenaturais por terem o corpo fechado.

1497241_486862004759381_85686522_nChamava-me a atenção a capacidade criativa dessas pessoas de elaborar, ressignificar e modificar episódios, reais ou não, das mais diversas fontes orais ou escritas. Isso me levou – na cara dura – a entrar em contato com o baiano João Ubaldo Ribeiro, para ouvir dele como se processava sua fábrica de personagens e histórias que entraram para o imaginário da literatura brasileira. Argumentos mirabolantes, contatos de contatos e alguns telefonemas depois, consegui o e-mail do escritor. Expliquei na mensagem do que se tratava a proposta do filme e pedi-lhe uma entrevista. Recebi, pouco tempo depois, um e-mail do próprio João Ubaldo, muito maior do que eu havia enviado, se dispondo a dar-me seu depoimento, mas argumentando de forma única e engraçadíssima todas as razões possíveis pelas quais ele não seria uma boa opção, já que pelas suas próprias palavras, “eu nunca tive interesse por cultura popular, nem mesmo me preocupei em tentar conceituar o que seria isso”. Mais alguns e-mails trocados depois, o convenci que seu relato cabeira sim numa contraposição interessante ao que tratávamos. Combinamos a gravação para o final de Janeiro de 2014, quando ele passava suas férias em Itaparica, sua estimadíssima “terra-para não-fazer-nada”.

20140128_174424O telefonema que recebi do autor, em meio à correria, era o retorno às ligações em que eu tentava confirmar o dia exato e o horário em que poderíamos finalmente nos falar ao vivo e a cores. Havia dias que não conseguia falar-lhe diretamente e mantinha contatos com sua atenciosíssima esposa, D. Berenice. Durante os contatos anteriores em que falei com aquela voz potente e grave, sempre era eu quem ligava. Receber uma ligação dele, confesso, era meio assustador. João Ubaldo, com a mesma voz grave, mas cansada, confirmava nosso encontro, sob desculpas (ó pra isso!) por não ter retornado antes, já que estava dormindo muito naqueles dias por conta da medicação que tomava.

Desliguei o celular, dei uma quatrocentas e cinquenta piscadas, limpei a baba no canto da boca e fui encontrar a equipe em frente ao Mercado Modelo.

Finalmente no caminho para Itaparica, após passamos um longo tempo de espera até fazer a travessia (quem conhece, sabe o tamanho da fila!), chegamos no final da tarde à casa no centro da cidade onde o escritor, que ali mesmo havia nascido, passava religiosamente suas férias de janeiro. D. Berenice nos recebeu à porta e pediu que voltássemos um pouco mais tarde. O escritor continuava sua rotina condicionada de sono.

Uma hora depois, como pedido, olha nós lá. Entramos, e ele, ainda meio sonolento, veio nos receber como sempre gostava de ficar em casa: de bermudas, sandálias e sem camisa. Sentamos numa mesinha que ficava na entrada casa, sob uma árvore frondosa (de manga, eu acho). “Eu quero pedir desculpas, mas estou de mau humor, mas prometi a entrevista, então vamos”. Foi a primeira coisa que ouvi depois de um “boa tarde” lentamente característico, enquanto acendia um cigarro, emendado no outro que acabava (numa sequência que continuaria até bem depois que tivéssemos ido embora). Ainda assim, foi muito simpático e a conversa fluiu bem antes, durante e depois da entrevista.

1780732_486861938092721_232601917_nContou-nos sobre o fato de escrever pelo esforço imaginativo único de sentar e criar, sem estudos sobre a cultura popular, sem anotações do gênero, do “horror à pesquisa”. Que não fazia nada histórico, muito menos histórias de Itaparica; escrevia sobre ali porque ali nasceu e mantinha vínculos de memória, e que, portanto, tinha propriedade para fazê-lo. E que por isso, seus livros são mais tão históricos que qualquer outro romance pode ser, ao ambientar-se em qualquer época. Lembrou de pessoas que procuram em vão, parentesco com alguns de seus personagens, e de um sujeito que desceu de Sergipe, com o livro A Casa dos Budas Ditosos, querendo por “a” mais “b”, que ele confirmasse que a personagem do romance era a ex-miss Brasil, Marta Rocha. Disse ainda que escreveu Viva o Povo Brasileiro – acreditem – porque seu editor na época dizia que ele só fazia livros de pequeno volume; então ele escreveu um livro “grosso”.

Sagaz, incisivo e de um bom humor inteligentíssimo – que ia aparecendo cada vez mais à medida que o sono lhe abandonava – sua imagem ficou marcada em mim como a de uma generosidade tão rara quanto o talento, talhada numa verdade humana sem falsas modéstias. Ligado organicamente às raízes imaginativas que negava ter “horror” e falta de paciência em estudar, se exprimia, sob um talento inquestionável, sempre a partir da captação dos mesmos tons e nuanças de seu povo, gerando daí a formidável capacidade de transformá-las em histórias verossímeis.

Finda entrevista, fim do papo, livros autografados e com sensação gratificante garantida – pessoal e profissionalmente -, voltamos para Vitória da Conquista, com o que acredito ser um dos últimos registros do autor em cinema, e que deve compor a montagem final do filme.

Ainda fora do ar com a notícia da morte desse que, juntamente com Gabriel Garcia Márques, é meu outro autor mais querido, deixo aqui esse relato de minha grata memória recente, uma crônica mau humorada pela perda, escrita como um tributo a esse que é um dos mais criativos escritores da nossa literatura . Me sinto duplamente órfão em 2014.

Partilho com vocês também o e-mail que recebi dele (em 16 de setembro de 2013), porque acho mesmo que, como tudo o que escreveu, é de nosso maior gozo poder lê-lo. E seria egoísmo guardá-lo só para mim.

“Caro Marcelo,

Não há problema em lhe dar uma entrevista. O problema está em que talvez você me perceba de uma forma, partilhada por algumas outras pessoas, que não corresponde à verdade. Eu nunca tive interesse por cultura popular, nem mesmo me preocupei em tentar conceituar o que seria isso. Não convivo com o chamado “povo simples” com a intenção de captar nada, ou observar nada, não levo cadernos ou gravadores, jamais anotei nada. Quando estou em Itaparica, como fazia quando morava lá, vou todos os dias ao Mercado Santa Luzia, mas não para observar nada, ou colher nada, mas porque ainda tenho até alguns amigos de infância por lá e tenho prazer em ficar jogando conversa fora com eles, chego até a mudar, sem sentir, meu “dialeto”. Fico conversando sobre alguns amigos finados, cada vez mais numerosos, sabendo de algumas fofocas locais e trocando abobrinhas desse tipo.

966298ba0dac9fc288373a2aa1a2612e107Na verdade, com exceção de uns dois ou três grandes conversadores da ilha, entre os quais meu eloquentíssimo amigo (também finado) Zé de Honorina, eu nunca aguentei muito sessões de causos e, quando o contador entra no terceiro, já penso num jeito de me subtrair do ambiente. Não tenho o costume de ler livros de cordel, não vou mais a festas populares, tenho receio de festivais folclóricos, não conheço histórias, a não ser as poucas de Trancoso que lembro da infância. Meu amigo Geraldo Sarno, sim, é um estudioso do assunto, um intelectual sério, que documenta essas coisas. Eu não, não sei nada disso. Não é pose, falsa modéstia, ironia, nada dessas coisas, é a mais pura verdade, pergunte a quem me conhece de perto.

Quem me contava as coisas de candomblé que estão em meus livros era Zé de Honorina, feito aos nove anos, que sabia tudo. Aí eu gritava, do outro lado da praça, perguntando como era a saudação de tal o qual orixá. Ele me dizia, eu botava lá, só que eu sou profissional e o poeta é um fingidor, de maneira que fica verossímil. Muita gente que lia minhas pequenas descrições de navegação e pescaria, ia a Itaparica me convidar para navegar à vela, coisa que eu detesto, mas da qual eles juravam que eu entendia e curtia muito. Assim como gente que lia Sargento Getúlio e me convidava para uma temporada numa fazenda do “meu jeito”, ou seja, no meio das brenhas. sem água encanada, luz etc. Claro que eu nunca fui, adoro ar condicionado, tenho horror de muriçoca, banho frio e latrina em que se joga um balde d’água no cocô.

Enfim, como você sabe, Edgard Rice Burroughs nunca esteve na África, Karl May nunca esteve nos Estados Unidos e Edgar Allan Poe nunca esteve em Paris. Então eu acho que a entrevista que eu der não vai contribuir para seu trabalho, simplesmente porque eu não sei nada do assunto, sério mesmo. Mas me escreva, se precisar.

Um abraço amigo, de

João Ubaldo

 

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2 respostas para “Minhas memórias de João Ubaldo: uma feliz crônica de tristeza e mau humor”

  1. Zélia Chequer disse:

    Que experiência, Marcelo! Deve ter sido incrível.
    Fiquei com inveja.
    À medida que vamos avançando na vida, vamos ficando um pouco órfãos de amigos e de talentos. Tanta gente boa que está indo… José Wilker, André Setaro, João Ubaldo.
    Parabéns pelo texto.
    Abs

    • Marcelo Lopes Marcelo Lopes disse:

      Obrigado, professora… Essa memória vai ficar mesmo e por muito tempo guardada carinhosamente.
      É, este ano tem sido um ano particularmente triste para a cultura do audiovisual e da literatura. Perdemos esse ano outras figuras da TV como Claudio Cavalcante e o comediante Canarinho, e no cinema foram-se também D. Lúcia Rocha e meu querido amigo João Sampaio (crítico do jornal A Tarde e militante do cinema brasileiro).
      Somando Gabriel Garcia Marques o saldo desse ano tá bem alto. É o tempo cobrando (às vezes antes do que parece merecido) a presença de certas figuras em outras paragens.
      Enfim…………..

      Abs!

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