Caetano em Conquista: a dor e a delícia de ouvir e não ouvir

Por Marcelo Lopes

gramofoneExiste um charme na precariedade certa. Quem já se deliciou ouvindo os ruídos nos discos de vinil velhos ou tentando decifrar o que cantavam as canções nas gravações domésticas em fitas cassete sabia que o essencial do prazer de ouvir nada tinha a ver com a busca quase neurótica pela qualidade técnica definitiva. Claro que isso era antes.

Hoje, com os milhares de decibéis que se dobram à vontade dos equipamentos de som potentes, ouvir – nos mínimos detalhes e nuances – se tornou o espetáculo em si. Graças às mesas de milhares de canais, aos suportes de áudio em equipamentos tudo mudou em potência e nitidez, franqueadas às estruturas de palco, aos grandes e pequenos estúdios e até mesmo às famigeradas caixinhas de som que fazem o inferno nos transportes coletivos. Ouvir é máximo. Ou, como se pode esperar em qualquer show, o mínimo.

caetano(1)Infelizmente, é assim que tenho que começar a avaliar a apresentação de Caetano Veloso neste final de semana, 19, na Arena Miraflores, em Vitória da Conquista. A observação não diz respeito, no entanto, à performance, ao conteúdo artístico ou ao repertório do músico para o show “Abraçaço, seu trabalho mais recente: toda obra do cantor, suas letras, qualidade musical e história (que prefiro não biografar aqui por questões quase jurídicas) garantiriam um ótimo espetáculo… se pudéssemos ouvi-lo.

Vamos aos fatos e considerações:

Um dos maiores problemas do setor cultural na atualidade de Vitória da Conquista é o espaço físico para a realização de eventos. Com a interdição do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima – cuja estrutura, ainda que desgastada e desatualizada, era fundamental para o fluxo de atividades na cidade – muito poucos são os lugares que servem a demanda local. Inventariando rapidamente o que resta lembramos o minúsculo, mas acolhedor Teatro Carlos Jehovah, o Viela Sebo Café, o Memorial Régis Pacheco (ainda muito restrito para atividades não institucionais), o Parque de Exposições (gigantesco para muitas atividades), alguns espaços alternativos pontuais, como bares e restaurantes, além de outros mais novos que não atendem às especificidades da cultura como o Centro de Convenções da União Espírita e a Arena Miraflores.

1393764_642970632391192_2059076269_nNo caso específico deste último, palco do show de Caetano Veloso, há de se considerar alguns aspectos: com área total de 20 mil metros quadrados e apta a receber até 25 mil pessoas, a utilização do Miraflores tem sido frequentemente usada em sua área menor e fechada, com realização de shows de pequeno a médio porte. Por área fechada entenda-se o espaço do camarote, construído inicialmente apenas para abrigar a área vip de espetáculos maiores. O problema é estrutural: teto muito baixo, o som literalmente bate e volta na parede dos fundos e a distribuição de som faz tudo reverberar, o que faz com que o plano de som para o local seja muito bem pensado para a realização de qualquer espetáculo. Novamente o problema que sempre retorna: não há espaços adequados para a cultura em Vitória da Conquista.

Sobre isto pesam dois pontos fundamentais. O primeiro é que para produzir um espetáculo em Conquista é preciso “inventar” alternativas, buscar lugares que possam minimamente enquadrar-se às possibilidades de receber públicos específicos (teatro, dança, música, entre outras manifestações). Isto normalmente encarece os valores de ingresso e o resultado são espetáculos muito caros ou em lugares despreparados. Segundo, diretamente ligado ao primeiro, quem produz deve lembrar-se das responsabilidades para com o artista e o público: a viabilidade, calculada em custos e logísticas, implica ser capaz de atender a ambos no jogo entre a falta de espaços propícios e o que se propõe realizar. Daí o impasse do produtor cultural em Vitória da Conquista. Daí repousa também toda a crítica ao show de Caetano Veloso.

1383423_643368049018117_426263972_nCom ingressos que variavam de R$ 50,00 (meia) a R$ 250,00 (logo, não foi barato), a voz que mais se ouviu no show lotado foi o burburinho das reclamações: grande parte das pessoas não ouvia nada além de um som distorcido. Ao invés de saborear os versos de “Esse laço era um verso/ Mas foi tudo perverso/ Você não se deixou ficar./ No meu emaranhado,/ Foi parar do outro lado,/Do outro lado de lá, de lá”, da música título do show “Abraçaço”, a falta de cuidado com o público excluiu, por dentro, um sem-número de pagantes. A situação gerou protestos, que nem o próprio Caetano chegou a ouvir, tal o problema da acústica: a delícia de ouvir tornou o tão esperado show uma dor frustrada de não ouvir. Dividido em “área das cadeiras” e todo o “resto”, a setorização do camarote chegou a criar certo constrangimento a quem pagou mais, já que o som mais nítido era privilégio apenas de algumas poucas fileiras à frente do palco. O desejo de ouvir um dos maiores nomes da MPB ficou, literalmente, lá atrás pela falta de sensibilidade de uma produção local mal cuidada: o projeto de sonorização não levou em consideração as especificações do lugar e sequer se preocupou em distribuir o equipamento para uma musicalização racional do ambiente. Era mais nítido ouvir a voz de Caetano na área de acesso aos banheiros, do lado de fora, que no local da apresentação. O problema do retorno foi sentido pelo próprio cantor, que fez observações no palco no início do show.

Para mérito do público e dos artistas que frequentam o circuito cultural conquistense, há de se ter como ponto central a mediação entre o que se pode organizar bem – com seu lucro devido, quando for o caso – e o cuidado com o que se oferece. Enquanto não houver espaços adequados, o profissionalismo tem por obrigação ter a devida atenção com as deficiências na logística, quaisquer que sejam e por que motivos existam.

Depois de anos sem vir a Vitória da Conquista, a sensação da grande maioria das pessoas no show foi a de que o abraçaço de Caetano Veloso, infelizmente, não se estendeu a todos.

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

3 Comentários

  1. O que não dá pra entender é como se constrói um local EXCLUSIVO PARA SHOWS, como é o caso do Mira Flores, pelo que sei, e esse esse espaço não possuir uma coisa tão básica que é a ACÚSTICA!!!!!!!
    Alguém pode explicar o fenômeno?

  2. Eu creio que Abraçaço foi um evento subestimado pela produção local. Tive a impressão que o show seria só para as cadeiras, mas… O público de não cadeiras se manifestou; e para não perder a fatia deste público “inesperado”, foi feito aquele lamentável armengue num espaço já precário para o evento. Tirando o talento e a energia ótima de Caetano, o resto foi todo ruim, constrangedor e desrespeitoso.

  3. Gostei muito do comentário. É muito triste mas ao mesmo tempo esclarecedor saber dessa deficiência numa cidade com mais de 300 mil habitantes. É uma pena, Conquista não merece estar passando por isso. Tantos investimentos na cidade e nada na categoria cultura e entretenimento…

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