Conectados na Quarentena

Por Marcelo Lopes

Giles Lipovetsky, filósofo francês de nome esquisito e teórico do que chamam de Hipermodernidade, em seu livro A Cultura Mundo: resposta a uma sociedade desorientada, considera que a nossa atual fase mundial (ou o que ele chama de hipercapitalismo) tende a nos tirar o chão que conhecemos. As estruturas que normalmente garantiam alguma estabilidade social – o Estado republicano, a Igreja, os aparatos públicos de segurança, a escola, e por aí vai – tudo hoje perde força em função do reinado absoluto do mercado. A grande pauta, que é econômica, também é cultural, mexe no modelo geral da forma de agirmos no meio social e privado.

Na ausência da sensação de alguma segurança que essas instituições nos davam – e, no caso brasileiro, de um governo federal que mais atrapalha que ajuda pra isso, encabeçando uma pauta fundamentalmente econômica (e que se lasque a vida humana) – pouco nos sobra a não ser buscar alternativas nada convencionais de vida cotidiana. Coroados por uma pandemia mundial, nos voltarmos para o redimensionamento das nossas relações pessoais pela via de um mundo hiperconectado.

Se nas últimas décadas a maneira como nos ligamos às pessoas tem sido cada vez mais individualista, com práticas solo de vida, voltados para um mundo virtual e potencialmente infinito que segue no sentido inverso da vida real, a quarentena imposta pelo combate ao corona vírus nos têm feito valorizar de outro modo o contato com as pessoas: não vê-las pessoalmente, não poder tê-las por perto, não poder sequer tocá-las, sedimentou a angústia generalizada de um confinamento quase surreal. A busca da materialidade do real no virtual.

E por que estou falando coisas tão complicadas? Porque estou cansado de fazer Live.

Em tempos de covid19 é o que nos tem restado. Amigos, parentes, colegas, casais (meu caso!!) têm se dedicado, por horas a fio, a beber, conversar, cantar, dançar, comer, fazer DR, fazer sexo, pintar unhas, pintar quadros, compor sinfonias, dar aulas, ensinar a fazer mingau, tomar porre, tomar banho, xingar o Bozo, xingar o Lula, sentir saudades do Gugu, torcer no BBB, molhar as plantas, fazer croché, criar memes, trabalhar deitado, assistir séries, fazer sexo (acho que já falei isso, né? não sei por que…), empilhar cartas de baralho, jogar vôlei e futebol, pentear o cabelo. Tudo por chamada de vídeo.

O mundo em confinamento trouxe questões para se pensar. Nossa maneira de estar no mundo precisa mesmo ser assim? A economia, da forma como está, vai se flexibilizar para dar um espaço menos apertado para vida humana? O Estado mínimo, com suas estruturas públicas disponíveis, tem que deixar de ser mínimo somente na hora de enfrentar e dar suporte às pessoas numa pandemia mundial? E, de fato, já não éramos pessoas confinadas em si mesmas muito antes dessa coisa toda acontecer?

A vontade incontida de ter de volta o contato físico, a presença concreta, é um tapa na cara na tendência cultural contemporânea que nos tem feito achar que o relacionamento virtual substituiria ou, de algum modo, subjugaria a necessidade de boa parte das relações pessoais no mundo real. Né assim que a banda toca, não, viu?

O potencial da virtualidade pode muito bem suprir as necessidades de logística e dinâmica do mercado mas, nem de longe, é capaz de dar conta dos afetos humanos, da bomba atômica de calor interno que um abraço pode gerar, da leveza ou firmeza do aperto de mão, da luz real nos rostos, da sensação de segurança que a presença física dá.

E ainda que a tecnologia que nos permite falar e conviver à distância – e que, de muitas formas, nos salva por ora – seja fruto desse mesmo capitalismo que nos oprime, também são desse capitalismo as contradições intrínsecas que nos fazem questionar se somos gente de verdade ou o homo economics (olha Lipovetky aí de novo), seres consumidores mais que seres humanos. Ainda que tudo isso esteja dado como fato, que toda essa crise na saúde mundial ocorra em nossas vidas, que Lives persistam como forma de sobrevivência, tudo isso vai passar. E que nos transformem pra melhor. Porque, foda-se, eu quero é beijar na boca.

 

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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