Meus heróis morreram antes e depois da overdose

Por Marcelo Lopes

Os últimos meses têm sido implacáveis com algumas das nossas maiores e melhores referências para a cultura brasileira. Foram-se no curto período de um 2014 ainda inacabado, figuras como Jair Rodrigues, Eduardo Coutinho, Paulo Goulart, D. Lúcia Rocha, Luciano do Vale, Nelson Ned, Canarinho, José Wilker, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna. Isso sem contar personalidades internacionais que ajudaram a criar um imaginário diverso como o escritor Gabriel García Marques e o ator Robin Williams.

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Recentemente ouvi um comentário de Antonio Abujamra, no seu programa Provocações, em que observava que os jovens mantêm os da sua geração como ícones quase insubstituíveis (entre músicos, atores, escritores e outros artistas) e que era preciso sim que os mais novos buscassem superá-los. Mais do que certa, esta é uma necessidade fundamental. Mas, para além dos Chicos e Caetanos, onde estão as referências dessas gerações posteriores?

Atualmente as opções são cada vez mais estranhas: se tomarmos, por exemplo, os ídolos do rock dos anos 80, que inspirados no punk e pós-punk, se opunham ao regime militar e reivindicavam as Diretas Já e a democracia, muitos não se renovaram ao longo do tempo e, pior, alguns deles, com certo espaço na mídia, se tornaram notórios conservadores, repletos de inflamados discursos direitistas.

Marcelo_Paiva_02Recentemente, o vocalista Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, atacou o escritor Marcelo Rubens Paiva, que o citou durante uma participação na 12ª Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), em Paraty, no Rio de Janeiro. A razão: ao abordar o tema do cinquentenário do golpe militar, Rubens Paiva lamentou o fato de muitas pessoas desconhecerem os impactos reais da ditadura que comandou o Brasil e citou Roger como um exemplo de alguém que escrevia músicas contra o autoritarismo fazendo críticas ao regime, e hoje se convertera a um conservadorismo conveniente. Segundo o escritor, a realidade de muitos jovens que não têm acesso à informação sobre o tema, diferente do cantor que viveu na pele esse período, tornaria a perspectiva crítica do Brasil algo muito mais sombrio.

Autor da clássica música “Inútil”, Roger passou longe da imagem que sua geração ajudou a construir e respondeu à citação de forma agressiva, dando o tom do tamanho do problema que tratamos aqui: “É compreensível que você considere o comunismo legal. Mas daí a me usar de exemplo na Flip foi canalha de sua parte. E errado”. A mensagem foi posteriormente deletada, mas o ataque continuou em outra postagem: “E tem mais, seu bosta: minha família não foi perseguida pela ditadura. Porque não estava fazendo merda”.

Em meio à superficialidade da maioria das novas propostas artísticas que circulam na mídia nos últimos anos, com certa freqüência olhamos para os roqueiros dos anos 80 como referência de idéias e estéticas críticas que ainda hoje mantém uma força simbólica importante em músicas como “Que País É Esse?”, da Legião Urbana, e “Ideologia” de Cazuza.

lobao-rogerNo entanto, independente do que tenham escrito, composto ou participado em movimentos artísticos diversos naquele período, algumas figuras como o vocalista Roger ou cantor Lobão se mantêm ativos não pelo seu potencial criativo ou inquietação política de uma esquerda hoje tão relativa, mas por um acúmulo de declarações reacionárias e vazias, mal disfarçadas de uma revolta cínica contra o Governo, contra a política e os políticos, e contra tudo e todos, num descrédito sem-fim no futuro brasileiro.

Buscando espaços perdidos ao longo do tempo e ocupando posturas de críticos politicamente incorretos, muitos desses antigos ídolos se reencaixam na mídia em programas de TV ou escrevendo para colunas em jornais e revistas e outros espaços cujo tema recorrente é falar mal do país. O tempo parece ter envelhecido mais que os cabelos desses roqueiros. Fico imaginando se esse envelhecer é afrouxar mais que os músculos, vincar a pele e fazer brotar doenças até onde é impossível imaginar. Fisicamente o tempo é implacável, mas será que o legado imortal das ideias juvenis (que não necessariamente é ingênua) virou coisa do passado?

Em artigo recente no site Pragmatismo Político, Wilson Roberto Vieira Ferreira, observa que essa geração anos 80 sofre de um senso de depreciação do Brasil que, à sua época, era visto como sem perspectivas, ligado a uma cultura hiperinflacionária. Gestada na expectativa de um fim do mundo que não aconteceu, três características se tornaram fortes nesses remanescentes que ainda tentam manter a atitude contestadora, como eternos rebeldes sem causa. Cito o artigo:

Rock-Brasila) O mundo não acabou, o País mudou, mas ainda tentam manter o discurso da revolta cínica e desesperançada com a qual chegaram ao estrelato na cultura da hiperinflação da década de 1980.

b) Suas carreiras começaram a entrar em declínio por não conseguirem se reinventar diante da mudança de cenário social e político. De contemporâneos tornaram-se extemporâneos.

c) Tornaram-se presas fáceis para o discurso neoconservador atual alimentado pela grande mídia. Em cada coluna de revista, artigo ou declaração para a grande mídia ávida por confirmar sua pauta primordial (o Brasil é uma merda!), seus discursos extemporâneos são repetidos como farsa, como repetição neurótica da velha cena do trauma localizada há 30 anos.

Não é que todo legado dos anos 80 se resuma a esse fenômeno reacionário. Ao contrário, a força inquieta desse período resiste em muitos outros artistas, nas letras, músicas, estéticas e linguagens, e pulsa de forma interessante em muita gente ainda hoje (devo muito dessas minhas reflexões a isso). Mas no momento em que de novo o tempo nos leva fisicamente muitas das nossas referências culturais mais significativas, ao voltarmos o olhar para uma geração mais próxima, nos percebemos meio perdidos.

Esse é o lugar da responsabilidade do qual Abujamra reclamava. Se não temos mais Suassuna nem Coutinho nem um Jair Rodrigues, quem temos ou teremos? Esse não é sequer um problema em si. Acredito mesmo que até já os temos em alguns lugares por aí. A questão é como fazê-los visíveis e perenes a olhos e ouvidos cada vez mais insensíveis e mal acostumados à superficialidade do consumo cultural e à volatibilidade de um número sem-fim de propostas que nascem a cada dia.

Coisas pra pensar.

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

1 Comentário

  1. Há uma diferença, Marcelo (meu xará), entre colocar questões em pauta e ser verborrágico, virulento e não contribuir com nada consistente, especialistas em generalidades,apenas fazendo estardalhaço com ares de indignado.

    É preciso olhar o cenário a certa distância, pra não incorrer na ingenuidade de achar, por exemplo,que o palavreado bonito de um Arnaldo Jabor, cercado de firulas, metáforas e imagens elaboradas, não esconde por traz de tanto enfeite de linguagem todo um discurso tão conservador quanto pode ser o da Rede Globo.

    O próprio conceito de revolução, desgastado e mal usado há um bom tempo, não cabe nem com um “pseudo” à frente.
    Melhor pensar de onde falam essas figuras e qual o teor do que falam nos dias de hoje.

    Abraço.

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