Susana Travassos: portuguesamente brasileira

Por Marcelo Lopes

Algumas noções mal alinhavadas na nossa percepção brasileira de mundo ironicamente também contribuem para fazer do Brasil um lugar ímpar, múltiplo e ensimesmado, simultaneamente. Somos um país de língua portuguesa cercado de outros de língua espanhola e, ainda que irmanados num mesmo continente, mal conhecemos nossos vizinhos. O problema não é a diferença de língua, acreditem. Se assim fosse, nossos laços com Portugal seriam ainda mais estreitos. Infelizmente, não são.  Padecemos de distâncias endêmicas e, no entanto, muito pouco espaciais, enraizadas numa estranheza histórica, numa ideia de colonização ainda hoje difusa, que não nos permite enxergar melhor à nossa volta nem contribui para nos fazer visíveis para além dos estereótipos.

Como a arte é este lugar sem bordas, que trespassa fronteiras, é nela que acredito ser viável nossa possível redenção: não a dos pecados, mas da nossa torta falta de sensibilidade para um mundo vizinho e parente, tão bonito e importante quanto somos.

Pautado no que de melhor podemos conhecer na música Brasil a fora, a Série Vitamina MP3 propõe abrir os olhos e os ouvidos aos irmãos lusitanos, pelo prazer de lá e de cá, apresentando nesta edição o trabalho da cantora portuguesa Susana Travassos.

ChicoSaraiva_SusanaTravassosCirculando o Brasil com o CD Tejo Tietê, em parceria com o músico Chico Saraiva, Susana, para além do trabalho em dupla e em carreira solo, também é membro da Orquestra Todos, uma banda multicultural de músicos de várias origens, com “cadinho de sons africanos, lusitanos, indianos, turcos e romenos, e sul-americanos”, que vem ganhando espaço em Portugal. De passagem por Vitória da Conquista, fala dos traços brasileiros na sua trajetória e de como dialoga com um Brasil profundo.

Suzana_Travassos___Intern_1363628530.2Sintoma de Cultura – Qual a sua relação com o Brasil, com os parceiros que encontrou aqui e o que isso importa para a sua música?

Susana Travassos Apesar de eu sentir que sou muito portuguesa, e que essa é minha base como intérprete, com dezessete anos eu ouvi um disco da Elis (Regina), no Festival de Montreux, com Hermeto (Pascoal), que é um disco incrível. E partir deste momento eu fiquei muito conectada com a música brasileira. Foi a partir dela que eu comecei a conhecer, através do repertório, os compositores, até que gravei um disco em homenagem à Elis, em 2008. Foi meu primeiro disco. E assim começa minha relação com o Brasil: de longe, nunca tinha visitado o Brasil, era uma coisa que eu gostava muito. Em primeiro lugar, da Elis enquanto intérprete, me identifiquei muito com a maneira de interpretar, com a maneira quase visceral, de entrega com as músicas. E foi isso que me chamou para cá. Em 2009, surgiu, por conta deste disco, um convite de fazer uma participação num espetáculo em São Paulo, com a banda Karnak, Zeca Baleiro… num projeto que se chamava Sotaques Paulistas, feito pelo SESC Pompéia. Fui para fazer esse show e aí fui conhecer o Brasil de verdade. E tive muita sorte porque, em São Paulo, caí no meio de músicos incríveis e compositores como o Chico Saraiva, com quem eu gravei este disco a gora, e muitos outros, como o Benjamim Taubkin, que fizeram um sarau para me receber. Aconteceu em São Paulo nos primeiros dias; eu tive contato com um Brasil que não chegava a Portugal, que não é o Brasil do samba, que não é o Brasil da bossa nova, que é um outro Brasil. E eu ainda me identifiquei mais e mais. O que sinto que quanto mais vou entrando na música brasileira – que não é essa que está no mainstream, que não se comercializa, que é uma música mais artesanal, que é mais de raiz – quanto mais vou conhecendo, mais tenho vontade de conhecer. Em cinco anos a minha vida profissional e minha música só foi neste sentido, de aprofundar mais no Brasil. E é um caminho que não tem fim.

Sintoma de Cultura – De que trata seu novo CD, o Tejo Tietê, que atualmente está fechando o ciclo de apresentações no Brasil?

1045231_561456967229017_843424946_nSusana Travassos Este trabalho com o Chico Saraiva, que começamos em 2009, no fundo é um trabalho que retrata este tempo que estive no Brasil, representa esta fase, que é uma fase muito rica, de muitas emoções. É uma coisa que se mistura, a vida e a música elas estão muito misturadas, é uma parte importante da minha vida e um ciclo muito importante, como intérprete, como pessoa. É um trabalho que tenho muito carinho, que estamos apresentando agora, mas já tem uma maturidade. Foi um trabalho que foi acontecendo, ele não foi preparado para ser agora lançado, ele foi acontecendo nestes quatro anos. Nós fizemos muitos shows até que chegamos ao momento em que tínhamos que fazer um registro dele e chamamos o Paulo Bellinati para fazer a produção, os toques finais. E é um trabalho que está dando um prazer imenso de apresentar ao vivo, um trabalho que apesar do disco em si ser importante, deste registro, ele vive muito deste momento vivo, de fazer a música acontecer, e desta ligação entre mim e o Chico Saraiva, que é muito forte no palco, porque no fundo nosso disco é isso: uma construção de diálogo muito intensa. É uma música que está muito livre, que tem alguns limites, algumas regras, mas ela está muito livre para acontecer dentro da interpretação. E isso vive de um diálogo e de um entendimento musical dentre nós, os dois, muito importante e que não tenho com outra pessoal.

Sintoma de Cultura – E como é conhecer estes “Brasis”?

Susana Travassos Continuo, agora em Vitória da Conquista, conhecendo mais um pouquinho, indo lá na Casa dos Carneiros… conhecendo o Elomar, que eu admiro. Hoje, então, depois de ter ido lá… Porque já não é só a música, você contextualiza a pessoa, a música na pessoa, a música na terra, a música em todo um ideal, materializada. E você vê porque aquela música sai assim. Estou maravilhada, apaixonada.

Conheça mais sobre a música de Susana Travassos:

Facebook: https://www.facebook.com/pages/Susana-Travassos/

Site oficial: http://www.susanatravassos.com/

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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