Um Corpo que Cai no topo da Lista

O crítico de cinema e professor da Ufba, André Setaro, publicou recentemente um artigo sobre a mais nova lista do Maiores Filmes de Todos do Tempos, onde o imbatível Cidadão Kane (1941) cede lugar pela primeira vez ao clássico de Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai (1956). O texto, mais do que uma aula, é um primor, talhado entre a clara compreensão histórica do cinema e a paixão pela sétima arte.————————————————————————————–

 
O tempo é o melhor juiz para o julgamento dos filmes. Algumas obras cinematográficas, tão exaltadas nos anos 50, caíram, nos tempos atuais de seu pedestal para um segundo plano e outras, desconsideradas, e nunca inclusas numa lista das melhores, subiram, com o passar do tempo. É o caso de Um corpo que cai (Vertigo, 1958), que, numa recente pesquisa da revista inglesa Sight&Sound, por 34 votos de diferença, desbancou de seu topo o clássico e impertubável Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), de Orson Welles, como o maior filme de todos os tempos. A pesquisa reuniu 846 especialistas em cinema, críticos, ensaístas, acadêmicos, historiadores. É uma enquete muito séria e feita com extremado rigor. A notícia se espalhou pelos jornais semana passada: Um corpo que cai, do velho Hitch, é considerado o maior filme de todos os tempos. Se fosse fazer uma lista, ainda conservaria Kane no topo, mas incluiria, sem dúvida, Vertigo, entre os cinco maiores momentos do cinema. Cada um tem a sua lista particular. Cada um tem seus filmes preferidos. Mas o resultado da enquete mostra que Um corpo que cai, realmente, é um monumento da chamada sétima arte.
Descoberto como um autor de filmes genial pelos críticos da revista francesa Cahiers du Cinema, Hitchcock passou muito tempo elogiado apenas pela sua capacidade de despertar emoções e submeter o espectador à agonia do suspense. Em Fronteiras do cinema, de Walter da Silveira, o grande ensaísta baiano chega a cometer um equívoco no capítulo As vertigens de Alfred Hitchcock no qual aborda, com extrema superficialidade, a sua “metafísica”, restringindo-o a ser um provocador de meras vertigens. Foi preciso que François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Claude Chabrol, entre outros, fizessem ver, através das páginas do Cahiers du Cinema, que Hitchcock, muito mais do que um mero “mestre do suspense”, era um autor completo, um inventor de fórmulas, um dos mais interessantes realizadores cinematográficos da história. Em Le cinema selon Hitchcock, livro de Chabrol e Rohmer, estabelece-se a prova irrefutável da maestria do autor de Vertigo, a chegar mesmo os dois críticos a afirmar que nos “filmes de Hitchcock o conteúdo é a forma”, expressão acabada da conjugação perfeita entre o elo sintático (a linguagem) e o elo semântico.
Hitchcock, e não se sabe o motivo do gesto, resolveu, em meados dos anos 60, retirar Vertigo, assim como outros de seus filmes, de circulação. Vintes anos se passaram sem que o filme pudesse ser visto ou reavaliado até que, com sua morte, em 1980, Pat, sua filha única, resolveu pô-lo novamente em evidência em 1984, com a distribuição mundial de um Pacote Hitchcock composto por Um corpo que cai, Janela indiscreta, Festim diabólico, O terceiro tiro, e O homem que sabia demais. O lançamento desses filmes fez vir de Hollywood o legendário James Stewart (que tinha participação na produção deles e, portanto, nos lucros porventura auferidos).
James Stewart é Scottie, inspetor de polícia em licença médica porque possuidor de acrofobia (vertigem em lugares altos), que acabou por deixar um colega morrer em ação. É chamado por um velho conhecido (Tom Helmore) para que vigie sua mulher, Madeleine (o biscoito proustiano?), interpretada por Kim Novak. O marido lhe diz que a mulher, em grande instabilidade emocional, está a ponto do suicídio. Scottie começa a acompanhá-la de longe, a princípio, pelas ruas de São Francisco, e chega a salvá-la de um afogamento. O seu trabalho, porém, não contava com um acidente de percurso: vem a se apaixonar por ela. Não consegue, porém, impedi-la que se atire da torre de uma igreja (a vertigem lhe impede a salvação de Madeleine). Com profundo sentimento de culpa, entra em grave depressão até que, já restabelecido, encontra uma mulher extremamente parecida (uma sósia, a rigor) a Madeleine, que se chama Judy. Aproximando-se dela, procura modificar-lhe alguns detalhes e reconstruir, nela, a amada morta. A verdade, no entanto, e Hitchcock apenas fornece as informações para o público, a deixar Scottie sem saber de nada, é que Madeleine não morreu e que Judy é, apenas, uma mulher comum que fora contratada pelo amigo de Scottie para “representar” Madeleine. E quem cai da torre é a mulher do contratante, que a quer ver morta. Madeleine, o álibi perfeito.
O exegeta Noel Simsolo, que escreveu um ensaio sobre a obra de Hitchcock, diz que Um corpo que cai tem um universo de ópera wagneriana e do esoterismo de Bartok, e no filme se assiste ao nosso próprio sonho nos seus prolongamentos nefastos. Segundo Simsolo, “a tarefa que Scottie se atribui é um plano ignóbil e perverso que o obrigará a agir, amar e sofrer, a deixar assim sua impotência e passividade. (…) A segunda parte, mostrando a tentativa de Scottie de reencontrar, pelo artifício, a primeira mulher (Madeleine) na segunda (Judy) nos conduz ao limite do atroz em plena abstração da proposta. Porque Madeleine e Judy são a mesma mulher. A cor dos cabelos, as roupas, o penteado, (ou seja, a aparência), diferem, mas são justamente estes detalhes que nos levam, como a Scottie, à vertigem e ao fetichismo. Para nós, como para ele, Scottie recriou esta aparência para reencontrar o ser irreal do quadro sem expressão (Carlotta). E as lágrimas lhe chegam aos olhos quando ela aceita transformar-se na outra, lágrimas de Scottie que nos comovem e nos transformam em uma parte integrante do filme.”
Com bem salientou Inácio Araújo em seu imprescindível Alfred Hitchcock: o mestre do medo (Encanto Radical, Brasiliense, 1982), “trata-se de (recriar) uma mulher a partir da imagem de uma morta, ou seja: fixar a idéia como fundadora do mundo e o mundo como produto da imaginação (…) Filme sobre a criação de uma imagem, Um corpo que cai desenvolve a hipótese de reconstituir um objeto imaginário idêntico ao real. Filme de exploração dos limites, evolui no sentido de apagar a linha que separa o real e o imaginário, fendendo (e negando) o universo que captamos ordinariamente pela introdução de um acontecimento extraordinário (a ressurreição de Madeleine, falsa na realidade porém verdadeira por sua conseqüências).”
Obra metafórica em muitos sentidos (a vertigem, a queda, a árvore milenar, o rio e o mar, a mulher, o amor, a impotência, a morte e o desejo da morte, o medo da morte do desejo, o mito do amor perfeito e eterno…), Hitchcock atinge em Vertigo o apogeu da arte clássica (que implica imitação) e, num mesmo gesto, ultrapassa-a, afirmando a supremacia da construção sobre o realismo e a verossimilhança.
 
OS VINTE MAIORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS
1- Um Corpo que Cai (Hitchcock, 1958) – 191 votos 2- Cidadão Kane (Welles, 1941) – 157 votos 3- Era uma Vez em Tóquio (Ozu, 1953) 4- A Regra do Jogo (Renoir, 1939) 5- Aurora (Murnau, 1927) 6- 2001 – Uma Odisséia no Espaço (Kubrick, 1968) 7- Rastros de Ódio (Ford, 1956) 8- O Homem da Câmera (Dziga Vertov, 1929) 9- A Paixão de Joana d’Arc (Dreyer, 1927) 10- 8 ½ (Fellini, 1963) 11- O EncouraçadoPotemkin (Sergei Eisenstein, 1925) 12- O Atalante (Jean Vigo, 1934) 13- Acossado (Jean-Luc Godard, 1960) 14- Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979) 15- Pai e Filha (Ozu Yasujiro, 1949) 16- A Grande Testemunha (Robert Bresson, 1966) 17- Os Sete Samurais (Kurosawa Akira, 1954) – 48 votos 17- Quando Duas Mulheres Pecam (Ingmar Bergman, 1966) – 48 votos 19- O Espelho(Andrei Tarkovsky, 1974) 20- Cantando na Chuva (Stanley Donen & Gene Kelly, 1951) 20- A Aventura (Michelangelo Antonioni, 1960)
 
Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

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