O que OUVE de tão ruim?

Por Marcelo Lopes

A onda do pesadelo cresce a cada dia. Nas esquinas, na porta dos bares, no vizinho, nos alto-falantes do clube, praticamente em todo lugar. É uma agressão sonora com a exata medida da falta de educação alheia. Manifesta-se, por exemplo, naquele carro que, desde às 7h30 da manhã de um final de semana, arrasta pelas ruas da cidade um reboque com quilos e quilos de equipamentos sonoros ligados à toda, tocando o último “sucesso” do arrocha, provocando uma experiência que, musical e qualitativamente inversa ao que nos sugere a primeira ária de Carmina Burana, do compositor Carl Orff, também nos causa estremecimento e nos escancara as portas do inferno. Quem já ouviu ou comparou os dois sabe do que estou falando.

Levantei hoje num domingo preguiçoso – um dos muito raros nos últimos anos em que não trabalho – e me vi presenteado logo cedo com uma programação no Canal Brasil em que se exibia o documentário Fabricando Tom Zé, do diretor Décio Matos Jr.. Fui novamente tocado pela originalidade e capacidade criativa do nosso povo e, como resultado, fui atingindo em cheio pela força inquieta e visceral do músico baiano, que, não raro, consegue extrair de nós, minimamente, a mais completa estranheza do mundo. Daí, fiquei pensando: a culpa é nossa ou tem gente conspirando para que progressivamente a música-nossa-de-cada-dia fique pior? Não dá para levantar aqui quais são os termos preponderantes de uma música de qualidade sem que alguns queiram me linchar, outros concordar, outros tornarem-se indiferentes, me acharem conservador ou algo assim ponderado. Afirmo, no entanto, que existe um limite sensível – há muito avançado sobre a lógica do bom senso – nos dizendo que a coisa tá feia, tendendo a piorar muito no que se costuma chamar de popular na música comercial.

Há muito a se considerar: é preciso entender, por exemplo, que os gêneros musicais, por suas inúmeras variáveis, podem induzir facilmente qual perfil de música pode ser tida como uma boa ou ruim. Entre estas variáveis está, obviamente, o gosto pessoal. O bom para mim pode ser terrível para você e vice-versa. Arranjos complexos não necessariamente significam uma peça musical interessante, como também um arranjo simples pode demonstrar uma capacidade agregadora incrível, a exemplo do que fizeram Elvis Presley, Johnny Cash, Beatles (em início de carreira) e tantos outros ícones do rock. De tempos em tempos, e hoje cada vez mais, o mercado da música nos apresenta a bola da vez, perscruta-nos os ouvidos, constrói ícones e nos oferece, com campanhas de divulgação impossíveis de fugir, o gênero do momento, não importando qual seu conteúdo. Já recebemos nesta fórmula desde a Bossa Nova de João Gilberto e a Pilantragem de Wilson Simonal nos anos 60, passando pela Discoteca das Frenéticas na década de 70 e o Rock Nacional da Blitz, Barão Vermelho , RPM e Legião Urbana nos anos 80, à Lambada (anos 80/90), o Axé e o Sertanejo (no atual formato a partir dos anos 90) até chegarmos às versões universitárias de tudo quanto é gênero, como se a referência à uma graduação acadêmica os tornasse melhores do que de fato são.

Há quem diga que a música tem que dialogar com o público e ponto, e que este é um critério fundamental. Concordo. Mas com ressalvas também fundamentais. O nosso povo, o brasileiro, é reconhecidamente musical, vibrante, intuitivo para os sons mais diversos, dos mais melodiosos aos mais viscerais. Daí termos um leque de diálogo infinito. Desta forma, tudo o que nos vibra, pulsa e reverbera é, a priori, passível de nos empolgar num apelo instintivo, orgânico até a raiz. O que me leva a pensar em um mercado que privilegia e abusa disto para estimular um universo musical que nada acrescenta à criatividade humana, focado apenas no que há de mais primário na exigência do público, exclusivamente para gerar seu lucro. Na prática, lança mão, com fins econômicos, da releitura de uma coisa antiga, uma versão moderna do pão (substituído em geral pela cerveja) e circo (com entretenimentos similares e simbolicamente à mesma altura).

Estamos falando de músicas despropositadas, construídas em onomatopeias e refrões infinitos, emendadas com algum ritmo pulsante, capazes de fazer mexer a cintura e os miolos de um sem-número de pessoas, lotando shows por todo canto do país. A essas peças “musicais” não importam quais as escabrosidades sem-pé-nem-cabeça que costumam tratar nem o tema da vez; circulam quase em sua totalidade sobre algum tema sexual, sem meias palavras. Tecnicamente, não se importam se é o teclado quem toca ou se o arranjo vale o espetáculo. Gêneros de vertentes unicamente mercadológica como o arrocha, o pagode, o funk, o sertanejo e adjacências (com obras de raras exceções), em última instância, nos sacodem pelo princípio mais básico do corpo humano, pondo de lado tudo o que nos diferencia do restante do reino animal: nossa capacidade de pensar, criar e reconhecer a criatividade, nossa e de outros. Não se importam de se posicionar à parte do que se pode chamar de feeling, a alma musical, aquilo que emerge da capacidade criativa da música e da letra (quando esta se faz presente), e nos fazer sentir algo além. Um legado artístico cujo espírito é nos intuir para além do simples efeito sonoro, fazendo levar para depois da experimentação auditiva o barro essencial que nos mantém em pé como seres de sensibilidade. Esta essência é o que nos desenvolve para um estágio posterior a qualquer batida rimada e sem conteúdo que nada nos acrescenta à vida.

Quando afirmo esta posição, falo de um lugar muito específico: sou educador e a raiz do meu trabalho é a fluência cultural. Por isso, vivo na mediação entre o que é sumamente popular (qualquer que seja sua manifestação) e aquilo que desenvolve o ser humano em todas suas instâncias. Um pensamento que, desta forma, entra em choque com um mundo limitador de pessoas, propagador de manifestações que nada desenvolvem a não ser doses cada vez maiores de uma conveniente falta de educação, que perpetua programas de TV emburrecedores, músicas cada dia mais acéfalas, discursos cada vez mais incoerentes e realidades cada dia mais cruéis em espetáculos diários como meras estatísticas de mercado.

Se pensamos em crescer como seres humanos nosso parâmetro é sempre acima do atual estado em que nos encontramos. Isso redunda naquilo que praticamos no dia-a-dia, por isso avalio diariamente o que ouço e o que nos oferecem para ouvir, aquilo que normalmente se ouve nos celulares dos nossos pares, no som dos seus carros e casas, nos espaços que frequentam, nas conversas que entabulam. Filio-me com muito pesar a Frank Zappa que dizia que “a maioria das pessoas não reconheceria uma música boa se ela viesse e as mordesse na bunda”, principalmente por se entregarem a uma preguiça mental como se essa fosse a mais recente moda da estação. Mas, ainda assim sou mais a fim ao nosso grande Ariano Suassuna que afirma que “a massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto… Nunca vi um gênio com gosto médio.” E ainda acrescenta, “o otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”.

Assino embaixo.

Enfim, Tom Zé me acordou hoje fazendo um sonoro sacolejo na alma.
Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

35 Comentários

  1. Oi Flavia…
    A coisa não tem seguido um caminho muito bom pelo que somos obrigados a ouvir ultimamente… Se a mídia faz de tudo para continuemos assim, só temos duas opções: teimar em mudar isso da melhor forma possível ou esperar esse ciclo de baixa qualidade se esgotar… Como não acredito na última opção, vou por aí… sempre questionando.

    Obrigado pelo elogio… vamos nos falando.

  2. Olá! Lhe descobri no Obvious e já virei fã. O lado B virou requinte de poucos nesses tempos de pessoas movidas e arrebatadas pelos quadris! Só não entendi porque alguma feminista não moveu ainda uma ação contra o mega-power-global (plim plim som livre) de Fernando e Sorocaba, que diz no refrão desconexo da letra restante: “Se hoje a mulherada já topa / Imagina na copa, imagina na copa”. Arrocha nelas, fazer o quê!

  3. Jomas Jominhas:

    Seu texto virou questão de prova para 3ª série Ensino Médio, veja como ficou:

    QUESTÃO 15

    Estamos falando de músicas descontextualizadas, construídas em onomatopeias e refrões infinitos, emendadas com algum ritmo pulsante, capazes de fazer mexer a cintura e os miolos de um sem-número de pessoas, lotando shows por todo canto do país. A essas peças “musicais” não importam quais as escabrosidades sem-pé-nem-cabeça que costumam tratar nem o tema da vez; circulam quase em sua totalidade sobre algum tema sexual, sem meias palavras. Tecnicamente, não se importam se é o teclado quem toca ou se o arranjo vale o espetáculo. Gêneros de vertentes unicamente mercadológica como o arrocha, o pagode, o funk, o sertanejo e adjacências (com obras de raras exceções), em última instância, nos sacodem pelo princípio mais básico do corpo humano, pondo de lado tudo o que nos diferencia do restante do reino animal: nossa capacidade de pensar, criar e reconhecer a criatividade, nossa e de outros. Não se importam de se posicionar à parte do que se pode chamar de feeling, a alma musical, aquilo que emerge da capacidade criativa da música e da letra (quando esta se faz presente), e nos fazer sentir algo além. Um legado artístico cujo espírito é nos intuir para além do simples efeito sonoro, fazendo levar para depois da experimentação auditiva o barro essencial que nos mantém em pé como seres de sensibilidade. Esta essência é o que nos desenvolve para um estágio posterior a qualquer batida rimada e sem conteúdo que nada nos acrescenta à vida.

    Quando afirmo esta posição, falo de um lugar muito específico: sou educador e a raiz do meu trabalho é a fluência cultural. Por isso, vivo na mediação entre o que é sumamente popular (qualquer que seja sua manifestação) e aquilo que desenvolve o ser humano em todas suas instâncias. Um pensamento que, desta forma, entra em choque com um mundo limitador de pessoas, propagador de manifestações que nada desenvolvem a não ser doses cada vez maiores de uma conveniente falta de educação, que perpetua programas de TV emburrecedores, músicas cada dia mais acéfalas, discursos cada vez mais incoerentes e realidades cada dia mais cruéis em espetáculos diários como meras estatísticas de mercado.

    Marcelo Lopes,
    [Extraído de http://sintomadecultura.blogspot.com.br/2013/03/o-que-ouve-de-tao-ruim.html%5D

    Assinale a alternativa correta sobre o excerto acima. O articulista:

    a) Associa música de qualidade à produção exclusiva de música erudita, criticando corajosamente a todos os estilos populares, notadamente os sertanejos em sua totalidade.
    b) Critica a televisão como órgão responsável pelo ”emburrecimento” da música, no Brasil.
    c) Ao culpar o mercado, o autor insiste, ainda que sutilmente, em defender a pirataria, pois só com o acesso facilitado, a música poderia sofrer melhoria em sua composição
    d) Mostra-nos que a música feita para atingir somente o corpo está longe de ser uma música completa que possa conduzir o ser humano a experiências mais profundas com a arte e a vida
    e) Revela-se impotente em sua argumentação por ter-se permitido dominar pelo ódio a tudo o que não seja do seu agrado musical, desconsiderando as vertentes mais populares da música brasileira.

  4. Marcelo Lopes:

    Não nos dão tempo sequer para conhecer esse novo, seja pela oporunidade gerada, seja pq, uma vez que caia nas graças da mídia se desgasta tão rápido que a gnt toma abuso. Aquela coisa de mal deixar de ser construção e já se tornar ruína…

  5. Heryck Almeida:

    Isso! eu ia chegar nesse ponto do: “Novo que nós mesmo produzimos…” – Que pra mim é o que mais pesa, é nosso proprio preconceito sobre nós mesmos…. Vamos começar aos poucos nos valorizando mais, e esperar que um dia a coisa mude, ou melhore…sei la’…..Vai que!…rs

  6. Marcelo Lopes:
    Nosso caso é tão grave que nos falta a possibilidade se experiemtar o novo que nós mesmos produzimos, que está em toda parte, simplesmente pq não nos permitem acessar, o que é o cúmulo da exploração e cuja única saída é justamente a educação. Não precisamos ir longe pra conhecer o novo e o diverso, precisamo é olhar para nós mesmo, tirando o foco que outras coisas que forçam a olhar.

  7. Marcelo Lopes:

    Os contextos dessas suas experiências dizem tudo, Heryck, …. é o fundamental nisto é mesmo a educação. Nossa realidade nos diz por exemplo que rasteiro, “baixo” é aquilo que ão nos estimula para além do óbvio, que não nos provoca nada além das mesmas coisas de todo o dias, como enquadro determindas estilos musicais que são o grosso do que ouvimos por aqui. Nos EUA, essas experiências têm outro tom, outro foco, acrescentam pq eles naõ tem nada disso, nem em pequenas doses, muito menos em execesso… pra eles isso é o diferente, o provocador, o nada óbvio e por isso, não se associa a qualquer linha de possível preconceito.

  8. Heryck Almeida:

    Hum..é isso mesmo! Infelizmente estamos sim, sujeitos a isso q disse no final: Comprar, consumir… Mas reitero a parte que mais me apego, que é a Educação….e nesse caso, voltado pra o que é, ao meu ver, a raiz da coisa: “Não é o estilo, é o que se faz com ele.”
    Sabe, é tão estranho, que nos EUA eu não tive receio nenhum de tocar um axé, um pagode, um forró…. (seja pros gringos ou pros brasileiros que, apesar de ter bastante conterrâneos lá, sentem sim muita falta da coisa ‘pura como ela é’)
    – Já aqui no Brasil, muitas vezes ao depender do local que eu estou, as pessoas de certa forma torcem o nariz, quando me veêm tocando um classico, e depois fazendo uma roda de pagode ou participando de um forró, de um axé… – Poh, que isso! No lugar onde a coisa nasceu o preconceito é maior do que “fora” (ao contrario do que costumam dizer…) – Não sofri nenhum preconceito, ao conotrario, fui muito bem visto por levar uma identidade nova e incrementar isso numa area onde sé se vê o “classico” como modelo…. – Ou seja, tá sendo quase “proibido” se mostrar como amante da música…..rs

    Claro q não to defendendo as coisas “baixas” que são feitas com nossa diversidade cultural (até porque, mais uma vez, isso eh relativo: As pessoas as vezes fazem isso ou aquilo q dizemos ser “baixo” porque as vezes elas cresceram com aquele modelo dentro de “casa”) – O que quero dizer é sobre o que Marcelo colocou sobre a “perspectiva de crescimento”…é isso que faz a diferença….
    Enfim! Valeu pelo despertar disso tudo galera…muito bom…

  9. Marcelo Lopes:

    A discussão do que é “bom” ou é “ruim”, como disse no texto, é muito relativa, mas o fundamental é que esse felling da música esteja ligado a uma perspectiva de crescimento humano, qualquer que seja ela… e não creio que o que tenhamos como política musical no país nos ofereça qualquer outra coisa se não a opção de comprar, consumir, copiar um estilo de vida que nos nivela cada dia mais por baixo.

  10. Marcelo Lopes:

    O que nos é retirado é o poder da escolha, do exercício do gosto pessoal. Por isso, pela falta da educação que nos levaria mais longe, pela prática do desrespeito à opinião indivisual, pela ausência da tolerância com a ideia alheia e pela ditadura do “todo-mundo-deve-pensar-igual”, é que somos obrigados, por exemplo a uma zona musical a cada esquina, com aparelhos sonoros que são maiores que o próprio carro, ligados à toda de domingo a domingo; ou mesmo pela falta de diversidadade musical das rádios comerciais, pela programação de TV que não falam de outra coisa e daí em diante.

  11. Marcelo Lopes:

    A diversidade criativa do Brasil oportuniza um universo de manifestações musicais e todas elas são válidas, mas quem dita o que ouvimos não somos nós, é a indústria. Quem conhece Salvador sabe exatamente como funciona o mercado de música e peso que tem a indústria do Axé na definição que quem toca ou deixa de tocar para um público cada dia maior. O soteropolitando gosta dessa música? adora! mas o processo que o fez gostar disso desta forma nunca foi democrático para oferecer espaço equlibrado para outras manifestações tão legítimas quanto pq o olhar de que põe o foco sobre o que deve ser ouvido nunca se direcionou para eles. No final, nossa manifestação artística não é determinada pelo poder criativo, mas pelo condicionamento econômico.

  12. Marcelo Lopes:

    Heryck, vc vai exatamente na veia da coisa. O problema não é o gênero musical… é o que se faz com ele. Deixa eu te contar uma história (já incorrendo em uma quase inconfidência): nunca fui músico, a única coisa que eu toca é campainha (e assim mesmo nem sempre abrem a porta e nunca ninguém me aplaudiu por isso), mas tenho um ecletismo muito amplo também. Ouço desde gravações originais de Adoniram Barbosa, Cartola, Patativa do Assaré, Jackson do Pandeiro a Janis Joplin, Miles Davis e música classica passando pelo que existe de mais interessante hoje em dia com músicos como Felipe Catto, Tulipa Ruiz, Monique Kessous, Flora Matos ou outros de fora como Kaiser Chiefs, Franz Ferdinand e alguns rappers franceses como MC Solaar… enfim, um mundo de coisas. A questão é que, cmo trabalho num lugar onde a musica também é uma atrativo para o público, não coaduno com a ideia que o este público não possa ter acesso a outras coisas que só o pagadão, o arrocha, o axé e outras do gênero, pq existe sim um mundo de outros estilos (tão interessantes e divertidos quanto) que podem ser oferececidos. O discurso sempre é que deve-se oferecer sempre o que esse público gosta. A questão é: como oferecer outra coisa se este público não tem acesso ou oportunidade de aprender a gostar de outros estilos?

  13. Heryck Almeida:

    Minha preferencia: Musica instrumental, especialmente o classico/erudito.
    Mas ja tive grupos de samba, chorinho, arrocha, pagode, axé, forró (que adoro), tango, etc…
    Só que todos os trabalhos q fiz, foram espontaneos, com um bom Feeling da coisa…. (Ou seja, mesmo q fosse um trabaho erudito, se eu nao me sentir bem naquele meio, naquele projeto, etc…. Nao faço! assim como se rolar uma banda legal, alto astral, com boas intençoes, quaisuqer q seja o estilo, eu me jogo dentro! e faço com maior przer…) – Sou músico, quero fazer música…!

    Enfim, quando eu digo Educação (Cultura) acima de tudo, é porque Eu tive minha experiência fora do país estudando 1 ano e meio dentro de uma das maiores instituiçoes de música dos EUA, violão erudito e composição, e sou muito grato pela oportunidade….
    E ao tocar ou mostrar musicas de chorinho, grupos de axé estilo o olodum, timbalada, ou rodas de samba estilo fundo de quintal, revelaçao, a magica q Luiz gonzaga fazia com uma sanfona, uma zabumba e um triangulo, ou ainda o conjunto de produçao de um show estilo harmonia do samba, parangolé (em termos gerais) – e ao mesmo tempo os mais variados nomes da mpb, caetano, gil, chico, etc, etc e varias etc…Acreditem – eles ficavam radiantes com a diversidade cultural q nós temos e a capacidade q temos de criar cada vez mais coisas….
    E o q tem a ver com a educaçao?! -Tudo!
    Eles crescem e tem contato (em casa e escola) com uma qualidade musical tida por nós como “superior” em termos de arranjos, repertorio – leia-se compositores classicos eruditos, etc…Algo que eh falho no ensino e na cultura básica do brasil num geral. Mas aqui a maioria das crianças crescem ouvindo o samba, pagode, etc…
    Certo…a dificuldade de estudar algo erudito aqui, sera maior em vista de nao ter esse contato constantemente…é algo Muito “diferente”! – Mas lá tambem, o pessoal encontra enormes dificuldades em entender um instrumento e um ritmo tão frenético como um axé, um pagode….Sério! eles ficam Bestasss quando veem algo desse tipo ao vivo… (pelo mesmo motivo inverso das crianças aqui) Lá eles nao crescem ouvindo o q nós ouvimos….E vou ser sincero e dizer mais uma vez: Sou apaixonadoooo pela musica erudita, instrumental… Mas ao mesmo tempo sou cada vez mais feliz por ter o swing brasileiro no meu sangue, essa pegada unica q temos no pagode, no axé, no samba, esse molejo e facilidade q temos pro forró, arrocha o q seja…. Porque no final das contas é tudo relativo, Depende de quem faz o que faz….

    A qualidade da música pra mim é sempre ALTA! De qq lugar, de qq estilo…. Mas depende de cada pessoa manter essa qualidade ou trazer algo de si (q vai fazer com q aumente ou diminua essa qualidade….)

    Parabens a todo mundo pelas exposições… Espero poder ter contribuiddo de alguma forma! Se algo não ficou claro, podem me perguntar…as vezes empolgo falando sobe musica! rsrsrs….

    Abraço galera!! Vamo fazer nosso som na paz…e torcer para que os valores culturais retomem sua posição!

  14. Heryck Almeida:

    (Bom, primeiramente…desculpa ter falado tanto! hahaha… Mas eu muito bom fazer parte dessa discussão toda!)

    Bom…..fico muito feliz em ver essa galera massa (com moral de argumentar) discutindo sobre isso, concordo muito com Marcos? e Dilton? nos primeiros comentários quando citam a dificuldade em se rotular a musica como “boa” e “ruim”.
    Pra quem me conhece BEM, sabe que desde cedo, desde os primeiros acordes e contatos com a musica, eu sempre fui muito eclético, muuuito mesmo! E continuo sendo! (Como músico, ou como qq artista, acho q a palavra “preconceito” nem deveria existir) E assim não fazia pra agradar a todos não…fazia porque eu conseguia (e consigo) me identificar e tirar um pouco do proveito de cada estilo musical, seja pra o meu pessoal, pro meu profissional, etc…. Mas acreditem se quiser, eu realmente consigo ver o lado “bom” de cada e qualquer estilo de música (dentro da minha concepção e experiencia, claro…)
    – Um musico tem suas preferencias e suas escolhas…. Mas nao acho que nenhum de nós dessa classe pode dizer realmente o q é BOM ou RUIM, porque a origem d cada estilo tem sua propria historia, etc, e não nos cabe questionar isso (Acho q meio que aquela historia, igual a religiao: existem varias, o proposito é o mesmo de buscar algo de bom, mas por caminhos diferentes, interpretaçoes diferentes… – e isso ocorre pq as pessoas sao criadas em lugares diferentes, por pessoas de origens diferentes, com valores diferentes, etc..)
    O que é bem relativo são as “exceções” de artistas de cada estilo, que as vezes distorcem o conceito original, ou fogem a raiz da coisa, etc…. (exceções essas que acabam se tornando Maiorias) – E isso, claro, tem a ver com o que falaram ai em cima, sobre o controle da midia, o dinheiro que eh desprendido pra fazer com que as pessoas Acostumem com isso ou aquilo e acabam aceitando e deixando rolar….
    Mas algo que pra mim é primordial e decisivo nesse “conflito cultural”, ou a tal “Baixa qualidade com aceitação”, é a base de tudo: A Educação!
    (Claro q eu nem vou entrar nessa questao porque envolve a politica podre do nosso pais, a falta de investimentos Reais, etc…e esse assunto vai longe….)
    Quem me conhece, sabe que até hoje dou meus pulos em qualquer qe seja o estilo/genero musical. INdpendente do estilo, eu procuro fazer o q me agrada, o q me faz sentir Bem….

  15. Marcelo Lopes:

    Fatores como esse são o exemplo de um país cujos destinos ficam quase sempre nas mãos de poucas pessoas, que acreditam que a educação mínima, ou quase nenhuma é muito conveniente para mantem um status político e econômico favoravel. Ignorar eterminados fatos, consjunturas, contextos, políticas, posturas de mercado é fundamental para manter o que, econômica e socialmente, mais chama a atenção da história do país, que é a concentração de renda, e, por conseguinte, a de acesso real a muito bens simbólcos capazes de mudar os rumos da educação no país. Então, quando falamos do que é popular no Brasil em termos de música, da pouca exigência sobre o que se ouve e da tão fácil manipulação da mídia sobre o que se deve ver e ouvir, o gosto ou qualquer outro critério pessoal não determina muita coisa. Esta indústria ocupa o lugar da educação que nos dignifica e põe em seu lugar uma educação que nos induz de forma sutil ou não ao consumo desenfreado dos produtos que são apresentados na ponta do mercado, seja ele nacional, internacional ou regional.

  16. Marcelo Lopes:

    Dilton, suas considerações são ótimas e acredito sim que a internet (ou pelo menos todo o suporte tecnológico que agrega acesso a informações como o que internet encabeça) é fundamental pra uma logica de democratização de qualquer forma de conhecimento, inclusive a música. Mas problema fundamental é anterio a isso, anterior a midia e aterior até a discussão de determinado gosto musical: o Brasil ainda é um país cuja educação tem problemas endêmicos… se o brasileiro já lê mais, pouco entende o que lê, se frequenta as escolas, seu rendimento é muito abaixo do que precisa, se tem acesso a uma constituição que lhe garente direitos, não sabe sequer onde encontrar um exemplar das leis, quanto mais tê-la lido em algum momento da vida…

  17. Marcos Tulio Pereira:

    Joao acho que o Caio Blat é inocente ao achar que uma empresa qualquer vá fazer marketing de graça. A Globo filmes não é um departamento da Globo. Certamente é uma empresa independente (com orçamentos e quadros separados da TV Globo). O que eu ouvi ele descrever foi uma transação normal. O que é foda é o monopólio, o fato do mercado estar quase todo com a Globo filmes (estou falando de acordo com os videos, já que não conheço o mercado) e com isso você ser obrigado a firmar contrato com ela para não sumir.
    Mas pagar para aparecer, desculpe a sinceridade, eu não vejo anormalidade. Qual o problema você vê em alguém pagar para aparecer no Faustão? Novamento o problema não é o negócio. O problema é que esse negócio é, teoricamente, a única forma de aparecer.

  18. Dilton Ribeiro:

    Esse video é bem interessante. Mas, numa entrevista recente para a Folha, se não me engano, citaram que Caio Blatt pediu desculpas por citar Jõ Soares. Jô disse na entrevista que não existe isso no programa dele e que nunca houve.

  19. Dilton Ribeiro:

    É verdade, Joao Carlos Menezes. O poder a midia é enorme e não há como não levar isso em consideração. Porém, eu me pergunto até que ponto isso acontece. Quer dizer, qual é o nível real de influência direta da grande mídia na escolha de um estilo musical? Tanta gente hoje em dia no Brasil e no mundo têm acesso a internet e podem ouvir e aprender muita coisa. Mas, ainda sim, escolhem não aprender muito e ouvir o popular. O acesso à informação nunca foi tão presente na vida de tantos, mas ainda sim não parece haver tanta importância. A força da televisão, por exemplo, está diminuindo em vários lugares. Teve uma matéria em um jornal americano famoso mostrando que há cada vez menos gente vendo tv. E ainda sim a cultura é do jeito que você apontou. Tem também os meios de comunicação regionais. Não seria mais fácil mudar um meio regional que uma grande empresa de comunicação? Pode ter mudado muito desde janeiro passado (quando estive aí), mas o funk na Bahia não era tão popular quanto no Rio e o arrocha da Bahia era praticamente desconhecido no Rio Grande do Sul. Então, qual o poder dos meios regionais de comunicação em relação aos maiores? Eu acho que há também a vontade de seguir grupos. As pessoas querem ser aceitas, querem pertencer a grupos populares e curtir música popular talvez já seja um caminho para isso. Acho que há uma janela aí para olharmos também.

  20. Joao Carlos Menezes:

    Só me intrometendo no dialogo entre Dilton e Marcelo, tenho uma ressalva a fazer. Já é sabido que há uma certa imposição do que você “quer” feita pela mídia. Não se vende o que a maioria escolhe. A mídia induz o povo a desejar o que ela quer. Isso é bem claro num vídeo do Caio Blat sobre o processo de escravização por dívida que as indústrias Globo fazem com produtores de filmes. Ao ter o poder de acesso à maioria esmagadora da população brasileira, ela acaba tendo o poder de dizer quem é ou não sucesso, quem é ou não de valor de acordo com pré-requisitos unicamente financeiros. Falo isso inclusive por ja ter vivido a situação de presenciar uma banda extremamente amadora de Salvador ter a condição de se apresentar como atração principal do Faustão, cuja exigência por parte da produção do programa ser um depósito adiantado de pouco mais de meio milhão de reais. Não se concretizou por questões internas da banda, mas inclusive todos os arranjos já estavam feitos. Não ouvi essa história, eu vi. O poder da mídia de induzir o que o povo quer é maior do que a gente quer acreditar. Um grupo com tanto poder capaz de, sozinho, eleger e retirar um presidente de uma República é algo absurdo e digno de anarquia. Não podemos tomar nosso discernimento como parâmetro para uma população ainda muito pouco esclarecida. Somos uma minoria pensante. Uma minoria menor do que imaginamos. Vivo isso no meu cotidiano.

  21. Dilton Ribeiro:
    Eu concordo contigo, Marcelo Lopes. Por isso eu acho que o importante é ter espaço na midia para diversos estilos diferentes. Porque assim, eu não posso julgar o que é bom ou o que é ruim, mas posso exigir espaço para ter estilos que me agradam. Acho que incentivos culturais governamentais deveriam levar isso em consideração. Há excelentes projetos sociais que comprovam que a música clássica, por exemplo, pode ter espaço grande e transformador nas comunidades de baixa renda. É uma questão de contato e oportunidade. Por outro lado, as pessoas tendem a seguir a maioria, mesmo que seja para serem aceitos por grupos A ou B, o que acaba também levando a uma preferência por um estilo x. Por isso eu concordo que a mídia empurra determinados produtos, mas eu acho (e é um achismo :P) que as pessoas também escolhem determinados estilos populares justamente por serem populares, por pressão de grupos mesmo que esses estilos ainda não sejam aceitos pela midia (o que acaba sendo porque as empresas devem querer aproveitar esse espaço e demanda).

  22. Marcelo Lopes:

    Não discordo de vc, Dilton Ribeiro, mas o que é gravíssimo em tudo isso é que o relativismo, seja pelo gosto ou pela falta de parâmetro pra o que é bom ou ruim, reduz a música a um punhado de ritmos sacolejantes, sem referência ou história. Esta é a brecha que o mercado cria pra dizer que tudo pode, tudo deve, tudo é ótimo, quando muita coisa artisticamente merecida – muita coisa mesmo – não chega ao grande publico pq não tem um espaço digno na mídia, que escolhe o que deve ser ouvido, dentro e fora do Brasil.

  23. Dilton Ribeiro:

    Eu também tenho dificuldades em rotular uma música como boa ou ruim. Há estilos que não gosto, mas rotular como “má música” eu não sei se é a melhor forma. Aqui, por exemplo, a música de Teló fez o maior sucesso mesmo sem ninguém entender a letra ou saber se há ou não alguma referência sexual. Gostaram do ritmo da música. Eu estava no supermercado outro dia e estava tocando um sertanejo universitário (música que nunca tinha ouvido antes) o que diz que a música possui um “feeling”. Fui a uma loja de cds e dvds e o único cd de música brasileira que tinha lá era de gustavo lima (nem tom jobim tinha). Eu também não sei se concordo com Suassuna porque quem é que dirá o que é o gosto médio ou o gosto “acima da média”? Assim, eu acho que seria legal se houvesse espaço igual para vários estilos e gostos. A internet ajuda muito a democratizar o acesso, mas ainda sim poderiamos ter incentivo financeiro, espaços para shows, na tv…

  24. Postagem de João Carlos Menezes

    êêê Marcelo Lopes que falou meus pensamentos…

    “Mas, ainda assim sou mais a fim ao nosso grande Ariano Suassuna que afirma que “a massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto… Nunca vi um gênio com gosto médio.” E ainda acrescenta, “o otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”.

    Assino embaixo.

    eu também Marcelo, eu também. Não só assino embaixo, como choro junto…

  25. Poxa Marceleza,

    Em nome dos nossos bons, não tão velhos como também dos atuais tempos, digo que seu texto expressa o sentimento de pessoas que sentem angústia, desespero, pânico diante tamanha tempestado de “mau gosto” musical. Tenho certeza, meu amigo, que a mídia brasileira e, especialmente, a baiana conspira para a fabricação do gôsto popular. Imagino que a intencionalidade da mídia é perpetuar a velha tradição do
    Estado brasileiro: em suma, promover a ignorância-nossa-de-cada-dia. POBRE DO POVO QUE NÃO TEM OPORTUNIDADE DE CONHECER.

    • Valeu, velhão…

      Não dá pra não falar de assuntos quenos pertubam tanto. Principalmente naõ falar de uma forma mais incisiva: defender música só pelo gosto faz cair por terra todos os argumentos pq todos ttêm o seu gosto e o seu ponto de vista, mas quando se rocura entender que isso é uma discussão muito mais profundo, dá pra entender o tamanho do buraco qu estamos enfiados.

      Abração!

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