Contatos Sertaneáveis

Por Marcelo Lopes

Cismado. Olhando de trevés. Cara de não-sei. Desconfiado. Entre os mais diversos adjetivos para o homem nordestino de tradição rural, cabe um universo dentro do outro para se tentar entender o coração onde se assenta o sertanejo – que espia com um olho aberto e o outro fechado -, quando alguém de fora chega cheio de perguntas esquisitas.

DSC_1332Por esse mundo sudoeste que temos na Bahia, lá temos ido nós pelas parambeiras tentar ouvir os causos nas localidades onde acreditamos encontrar as tais histórias do corpo fechado. E não raro, é com essa primeira falta de fé no outro (no caso, nós) que esbarramos ao buscar as versões da tradição oral sobre o tema. E cabe aqui dizer o porquê de tanta má vontade.

Primeiro, não é má vontade. Abordar alguém sobre histórias que dizem respeito muitas vezes a pessoas da família, conhecidos, gente próxima ou não, não é algo fácil. É muita intimidade num tapa só. Junte-se a isso, cair de paraquedas em lugares onde praticamente todas as pessoas se conhecem, e, você ali – entre a cara-de-pau e a curiosidade indiscreta – tentar arrancar de uma pessoa que nunca lhe viu na vida pedaços da sua vivência, da sua memória. Depois, num universo em que a conversa rende mais se envolve algum vínculo por ser filho, vizinho, amigo, primo, cunhado, neto, tio ou toda uma ordem de parentesco ou correligionariedade com seu interlocutor, alcançar essas histórias nem sempre tem sido uma labuta fácil. Há todo um processo de aproximação, quebra de resistências, gentilezas e cismas, que vão se amalgamando até o papo ter a cor e o tom do cafezinho, relaxante e proseador.

Fizemos nossas primeiras incursões por Belo Campo, Planalto, Lucaia e Conquista (nas zonas urbana e rural). Ainda faltam outras localidades antes de voltar por lá; ver mais pessoas, conversar mais, ouvir mais. Daí sai nossa matéria-prima. Ritmos de cada um, histórias ao seu tempo. Ainda estamos na estrada. A experiência é válida.

Marcelo Lopes
Sobre Marcelo Lopes 263 Artigos
Historiador, produtor cultural, escritor, artista gráfico e técnico-analista em projetos culturais.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*